Coração e mente em dissonância

Heart and mind in dissonance (EN)

Corazón y mente en disonancia (ES)

Coração e mente em dissonância (PT)

Leon Festinger (1919- 1989), pai do conceito “dissonância cognitiva”, defendia que os seres humanos necessitam manter uma certa coerência psicológica de forma a poder funcionar mentalmente no mundo real. Uma pessoa que vivencia inconsistências internas tende a ficar psicologicamente desconfortável e é motivada (pelos próprios mecanismos de defesa) a reduzir a dissonância cognitiva. Para reduzir a dissonância causada pela incoerência entre opiniões, comportamentos, valores e/ou crenças há que mudar de alguma forma uma dessas variáveis. Uma das maneiras de fazê-lo é reajustando ou substituindo uma ou mais opiniões, comportamentos, valores e/ou crenças; outra maneira é procurando e adquirindo novas informações ou crenças que aumentem a consonância. Mas a maneira mais fácil (mas também menos eficaz, na minha opinião) é tentar esquecer ou reduzir a importância das cognições que provocam a dissonância. Quanto mais enraizada uma crença estiver, na cultura e nas práticas diárias de uma pessoa, mais forte será a necessidade de negar, substituir, esquecer ou reduzir a importância de crenças que se lhe oponham.

Quem me conhece sabe que nunca fui uma “amante dos animais”. Até aos 12 anos tive fobia de cães (cinofobia), e os gatos nunca me despertaram muito interesse. A maioria das aves e outros animais com asas, como os morcegos e as borboletas, causam-me uma sensação de desconforto físico que me provoca arrepios (não consigo explicar melhor). Sempre achei uma certa piada a esquilos nunca foi mais do que vê-los a passear-se pelos parques. Em resumo nunca fui uma daquelas pessoas que se derretem com todos os cães e gatos que veem na rua, e nunca tive vontade de ter um animal para que me fizesse companhia.

A minha mãe também não era uma “amante dos animais”, mas era bastante empática para com eles. Quando começava o calor não havia dia em que ela não pusesse um, ou vários, recipientes de água no quintal, para que os passarinhos pudessem beber e sobreviver ao verão alentejano. Lembro-me, como se fosse hoje, de um dia em que o meu pai apareceu lá em casa com um grilo, que ele próprio tinha apanhado, dentro de uma mini gaiola. A minha irmã e eu achamos piada no momento, mas quando o meu pai se foi embora e deixou o grilo connosco a minha mãe explicou-nos que era cruel manter o bichinho numa jaula e fomos logo com ela soltá-lo no jardim. Ela também não gostava das matanças do porco (“festa” tradicional em que família e amigos se juntam para matar um ou mais porcos e depois repartir tarefas de transformação do cadáver em vários tipos de “comida”) nem de touradas, nem de ver animais no circo.

A minha mãe sabia que os outros animais também sofrem, sentem dor, alegria e de alguma forma conhecem a diferença entre conforto e desconforto, liberdade e cativeiro. Empatia é isso, a capacidade de pôr-se na posição do outro. Mas a empatia para com os outros animais geralmente causa um certo grau (dependendo da capacidade empática) de dissonância cognitiva. Acho que a minha mãe lidava com a dissonância cognitiva, que se produz ao ser simultaneamente empático para com os outros animais e ao mesmo tempo gostar de comê-los (uma das refeições preferidas da minha mãe era “passarinhos fritos” – codornizes mais especificamente mas não tão diferentes dos pássaros que tentava ajudar todos os verões), da mesma maneira que a maioria das pessoas lida, e como eu própria lidei durante a maior parte da minha vida. Por um lado ela agarrava-se à crença de que é necessário, para ter uma boa saúde, comer produtos de origem animal, por outro ela pensava que o facto de comer animais ser “normal” (toda a gente o faz) e “natural” (porque os seres humanos “sempre o fizeram”) eram razões fortes o suficiente para fazê-lo. Mas mais ainda, ela recorria à tal maneira fácil de lidar com a dissonância cognitiva: simplesmente “esquecia-se” de que o que comia eram partes de animais que tinham vivido antes de chegar ao seu prato, e que para que isso acontecesse eles tivessem que viver em cativeiro e ser assassinados depois de ver os seus semelhantes passar pelo mesmo.

A minha mãe era o que eu gosto de chamar uma “vegana não praticante”. Acredito realmente que se ela estivesse viva hoje, depois de a Tico e eu nos termos tornado veganas, a minha mãe também se teria tornado verdadeiramente vegana. Na verdade já vi isso acontecer em muitas famílias de amigos veganos. E é natural, aprendermos sobre empatia, e sobre muitas outras coisas, através do exemplo de quem nos cria desde pequenos, e essas pessoas, quando veem as suas criaturas fazer uma mudança tão profunda nas suas crenças e comportamentos, sentem-se motivadas a repensar os seus próprios valores e hábitos. Famílias inteiras tornam-se veganas depois de um membro mudar a estratégia para lidar com a sua dissonância cognitiva, mas desta vez de maneira permanente, sem fazer o esforço de “esquecer” que ainda que eles não pudessem fazer mal a nenhum animal, pagam constantemente a outras pessoas para fazê-lo.

Conheço muitas pessoas que são, à primeira vista, muito mais empáticas que eu com relação aos outros animais. Uma delas não aguenta ver documentários sobre a vida selvagem porque fica com o coração nas mãos quando vê as presas serem abocanhadas pelos predadores. Outra adotou um cão que ama como se fosse um filho e desenvolveu um interesse especial pela espécie canina mas sei que se ela tivesse a oportunidade de conhecer outro animal (um porco por exemplo) profundamente na sua vida cotidiana, estaria tão comprometida em defender os direitos dessa espécie como os direitos da espécie do seu filho não humano . Outra ainda é talvez a pessoa mais empática que eu conheço com relação a pessoas, mas que, eu suspeito bastante também, com relação aos outros animais e acho que no seu caso a dissonância cognitiva já nem deixa que o seu corpo digira bem alimentos de origem animal, o que faz com que ela tenha muitos problemas digestivos.

Até o meu pai, que faz a matança do porco e os mata com as próprias mãos e que adora touradas, muitas vezes demonstra empatia por outros animais. Uma das maiores surpresas que tive na minha vida foi saber que o meu pai queria ter sido veterinário, a minha admiração por ele cresceu ainda mais nesse dia. No seu caso a dissonância cognitiva fez com que fortalecesse a crença de que há espécies que merecem carinho, proteção e respeito, outras que só servem para satisfazer os humanos e são coisas, como objectos sem sentidos nem sentimentos, e outras ainda que são “pragas” que nem sequer deveriam existir.

Todos nós temos que encontrar maneiras de lidar com as nossas próprias dissonâncias cognitivas, não só neste aspecto da relação com as outras espécies de animais, mas com muitos outros aspectos como crenças sociais e políticas dissonantes, inconsistências ao nível dos nossos valores e comportamentos, incoerências com relação a como nos vemos a nós própri@s e aos outros, etc.. Pela minha experiência nada dá mais paz de espírito do que acabar com as dissonâncias cognitivas mudando os comportamentos que estão em desacordo com os nossos valores, dentro dos possíveis para cada um.

Quais são as tuas dissonâncias cognitivas? Sentes por vezes o incómodo mental que provoca a empatia para com os outros animais conjugada com os hábitos alimentares “normais”? Conheces mais “vegan@s não praticantes” ou consideraste um@? Como sempre são bem vindas as vossas opiniões sobre este assunto.


Corazón y mente en disonancia (ES)

León Festinger (1919- 1989), padre del concepto “disonancia cognitiva”, defendía que los seres humanos necesitan mantener una cierta coherencia psicológica para poder funcionar mentalmente en el mundo real. Una persona que vive inconsistencias internas tiende a quedar psicológicamente incómoda y es motivada (por los propios mecanismos de defensa) a reducir la disonancia cognitiva. Para reducir la disonancia causada por la incoherencia entre opiniones, comportamientos, valores y / o creencias hay que cambiar de alguna forma una de esas variables. Una de las maneras de hacerlo es reajustando o sustituyendo una o más opiniones, comportamientos, valores y / o creencias; otra manera es buscar y adquirir nuevas informaciones o creencias que aumenten la consonancia. Pero la manera más fácil (pero también menos eficaz, en mi opinión) es intentar olvidar o reducir la importancia de las cogniciones que provocan la disonancia. Cuanto más enraizada una creencia esté, en la cultura y en las prácticas diarias de una persona, más fuerte será la necesidad de negar, sustituir, olvidar o reducir la importancia de las creencias que se le oponen.

Quien me conoce sabe que nunca he sido una “amante de los animales”. Hasta los 12 años tuve fobia de perros (cinofobia), y los gatos nunca me despertaron mucho interés. La mayoría de las aves y otros animales con alas, como los murciélagos y las mariposas, me causan una sensación de incomodidad física que me provoca escalofríos (no puedo explicar mejor). Siempre me han parecido graciosas las ardillas, pero la gracia nunca fue más allá de verlas paseando por los parques. En resumen nunca fui una de aquellas personas que se derriten con todos los perros y gatos que ven en la calle, y nunca tuve ganas de tener un animal para que me hiciera compañía.

Mi madre tampoco era una “amante de los animales”, pero era bastante empática con ellos. Cuando comenzaba el calor todos los días ponía uno o varios recipientes de agua en el patio, para que los pajaritos pudieran beber y sobrevivir al duro y seco verano del interior. Me recuerdo, como si fuera hoy, de un día en que mi padre apareció con un grillo, que él mismo había cogido, dentro de una mini jaula. A mi hermana y a mi nos pareció gracioso en el momento, pero cuando mi padre se fue y dejó el grillo con nosotras mi madre nos explicó que era cruel mantener el bichito en una jaula y fuimos a soltarlo inmediatamente en el jardín. A ella tampoco le gustaban las matanzas del cerdo (“fiesta” tradicional en que familia y amigos se unen para matar a uno o más cerdos y después repartir tareas de transformación del cadáver en varios tipos de “comida”) ni de corridas de toros, ni de ver animales en el circo.

Mi madre sabía que los otros animales también sufren, sienten dolor, alegría y de alguna manera conocen la diferencia entre comodidad e incomodidad, libertad y cautiverio. La empatía es eso, la capacidad de ponerse en la posición del otro. Pero la empatía hacia los demás animales generalmente causa un cierto grado de disonancia cognitiva (dependiendo de la capacidad empática de cada uno). Creo que mi madre lidiaba con la disonancia cognitiva, que se produce al ser simultáneamente empático para con los otros animales y al mismo tiempo tener gusto en comerlos de la misma manera que la mayoría de la gente leía, y como yo misma lidié durante la mayor parte de mi vida. Una de las comidas preferidas de mi madre era “pajaritos fritos” – codornices más específicamente pero no tan diferentes de los pájaros que intentaba ayudar todos los veranos. Por un lado ella se aferraba a la creencia de que es necesario, para tener una buena salud, comer productos de origen animal y por otro ella pensaba que el hecho de comer animales ser considerado “normal” (todo el mundo lo hace) y “natural “(Porque los seres humanos” siempre lo hicieron “) era razón suficientemente fuerte para hacerlo. Pero más aún, ella recurría a tal manera fácil de lidiar con la disonancia cognitiva: simplemente “se olvidaba” de que lo que comía eran partes de animales que habían vivido antes de llegar a su plato, y que para que eso sucediera ellos tuvieran que vivir en cautiverio y ser asesinados después de ver a sus semejantes pasar por el mismo.

Mi madre era lo que me gusta llamar una “vegana no practicante”. Creo realmente que si estuviera viva hoy, después de que Tico y yo nos volvimos veganas, mi madre también se habría vuelto verdaderamente vegana. En realidad ya lo he visto en muchas familias de amigos veganos. Y es natural, aprendemos sobre la empatía, y sobre muchas otras cosas, a través del ejemplo de quien nos crea desde pequeños, y esas personas, cuando ven sus criaturas hacer un cambio tan profundo en sus creencias y comportamientos, se sienten motivadas a repensar sus propios valores y hábitos. Familias enteras se vuelven veganas después de que un miembro cambie la estrategia para lidiar con su disonancia cognitiva, pero esta vez de manera permanente, sin hacer el esfuerzo de “olvidar” que aunque no pudieran hacer daño a ningún animal, pagan constantemente a otras personas para hacerlo.

Conozco a muchas personas que son, a primera vista, mucho más empáticas que yo con respecto a otros animales. Una de ellas no aguanta ver documentales sobre la vida salvaje porque se queda con el corazón en las manos cuando ve a las presas ser abocadas por los predadores. Otra adoptó un perro que ama como si fuera un hijo y desarrolló un interés especial por la especie canina, pero sé que si ella tuviera la oportunidad de conocer otro animal (un cerdo por ejemplo) profundamente en su vida cotidiana, estaría tan comprometida en defender los derechos de esa especie como los derechos de la especie de su hijo no humano. Otra es quizás la persona más empática que conozco con respecto a las personas, y también, lo sospecho, que con respecto a los otros animales. En su caso la disonancia cognitiva ya no deja que su cuerpo digiera bien alimentos de origen animal, lo que hace que tenga muchos problemas digestivos.

Hasta mi padre, que hace la matanza del cerdo y los mata con sus propias manos y que adora las corridas de toros, a menudo demuestra empatía por otros animales. Una de las mayores sorpresas que tuve en mi vida fue saber que mi padre quería haber sido veterinario, mi admiración por él creció aún más en ese día. En su caso la disonancia cognitiva hizo que fortaleciera la creencia de que hay especies que merecen cariño, protección y respeto, otras que sólo sirven para satisfacer a los humanos y son cosas, como objetos sin sentidos ni sentimientos, y otras son solo “plagas ” y que ni siquiera deberían existir.

Tod@s tenemos que encontrar maneras de lidiar con nuestras propias disonancias cognitivas, no sólo en el aspecto de la relación con las otras especies de animales, pero con muchos otros aspectos como creencias sociales y políticas disonantes, inconsistencias a nivel de nuestros valores y comportamientos, incoherencias con respecto a cómo nos vemos a nosotr@s mism@s a y los otros, etc. Por mi experiencia nada da más paz de espíritu que acabar con las disonancias cognitivas cambiando los comportamientos que están en desacuerdo con nuestros valores, dentro de los posibles para cada uno uno.

¿Cuáles son tus disonancias cognitivas? ¿Siente a veces la molestia mental que provoca la empatía hacia los otros animales conjugada con los hábitos alimentarios “normales”? ¿Conoces más “vegan@s no practicantes” o te consideras un@? Como siempre, vuestras opiniones sobre este asunto son muy bienvenidas.

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