Ser feliz estando triste

Being happy while feeling sad (EN)

Ser feliz estando triste (ES)

Ser feliz estando triste (PT)

Desde há bastante tempo que a psicologia e a neurociência tentam desvendar os segredos das emoções humanas. Há estudos que apontam para o facto de haver um número reduzido de emoções primárias ou básicas e muitos investigadores (como Turner e Plutchik) pensam inclusivamente que as emoções tiveram um papel muito importante na evolução da nossa espécie. Contudo não existe ainda um consenso geral sobre estes temas. Alguns estudos apontam para vários leques de emoções básicas que variam entre quatro a dez emoções diferentes.

Daquilo que li e aprendi estou bastante confortável com a ideia de que há quatro emoções principais: alegria, tristeza, medo e ira. Acredito que todas as outras emoções mais complexas partam dessas quatro e que nelas podemos encontrar a chave para compreender os nossos estados emocionais.

Muitas vezes estamos tomados por uma dessas emoções sem darmos por isso. Há pouco tempo a Tico escreveu sobre o ciúme e sobre como num momento da sua vida não tinha controlo sobre esse sentimento. Os sentimentos são interpretações conscientes das emoções. O ciúme não é mais que uma interpretação do medo de que a pessoa de quem gostas goste mais de uma terceira pessoa do que de ti.

Infelizmente muitos de nós aprendemos desde cedo a suprimir as nossas emoções mais básicas. Há relativamente pouco tempo, através de muita auto-análise e com alguma ajuda exterior, descobri que tenho uma tendência muito forte para suprimir a tristeza. Essa tendência tem várias razões sendo uma delas o exemplo (ou a falta dele).

Como com todas as outras ferramentas básicas para viver, aprendemos a gerir e controlar as nossas emoções de pequenos e através do exemplo. Não me lembro de ver a minha mãe triste nunca, exceptuando pelo falecimento de entes queridos. A minha mãe era uma mulher trabalhadora, divorciada e com duas filhas para criar. Acho que era um mecanismo de defesa e preservação que ela tinha, uma maneira de se mostrar a ela e aos outros como “forte”. Ela transformava toda a tristeza que pudesse sentir em ira. E mesmo o medo estava sempre um pouco disfarçado de ira, por isso só me lembro dela alegre ou zangada. Na realidade também só vi o meu pai triste uma ou duas vezes embora o tenha visto alegre e zangado muitas mais.

Lamentavelmente a tristeza (assim como o medo) é tida como sinónimo de fraqueza na nossa sociedade e eu, mesmo sabendo que isso não é verdade (que de facto saber lidar com a tristeza e com o medo são sinais de força e maturidade), tenho também tendência para suprimir essa emoção. Assim como fazia a minha mãe, quando um acontecimento me provoca tristeza eu “reciclo” imediatamente a emoção e transformo-a em ira. Não de forma consciente, como disse só há bem pouco tempo me apercebi disto.

Uma das coisas que me fez constatar esta minha dificuldade para lidar com a tristeza foi conhecer uma pessoa que tinha suprimido a ira durante grande parte da sua vida. Esta pessoa tinha nascido numa família bastante diferente da minha, onde o que estava mal visto era exprimir fúria, raiva ou indignação, onde ninguém gritava nem se zangava nunca.

Há pessoas que suprimem as suas emoções de alegria porque cresceram ou vivem em contextos onde estar alegre não parece estar correcto e muitas outras suprimem o medo porque acham que exprimir essa emoção as faz parecer menos corajosas. O que é um facto é que suprimir as emoções cria problemas e desequilíbrios emocionais.

Em muita da bibliografia disponível sobre a questão das emoções básicas “alegria” e “felicidade” são utilizadas como sinónimo e aí é onde eu ouso discordar. Na minha opinião a alegria é sim uma emoção, ou seja um conjunto de reacções físicas e psíquicas que são desencadeadas por um acontecimento (que pode ser interior como uma memória ou exterior como uma discussão). Não considero que a felicidade seja uma emoção mas um estado ou um modo de ser e estar na vida.

Como tal creio que se pode ser feliz e ter momentos tristes ou ser infeliz e estar às vezes alegre pois esses conceitos não são opostos e não se impossibilitam entre si. Para mim a felicidade tem que ver com estar em paz, com um contentamento constante e com aceitar a vida que se desenrola à nossa frente. Por sua vez a alegria está relacionada com divertimento, animação, entusiasmo ou graça.

No meu primeiro artigo falo rapidamente do episódio em que finalmente chorei a morte da minha mãe. Não foi logo a seguir a ela falecer mas sim uns anos depois durante o funeral da mãe de uma grande amiga. Nesse momento sentia-me profundamente triste, pela minha amiga e pela sua irmã (porque sabia bem pelo que elas estavam a passar), pela avó dela (que chorava e gritava de dor, a pobre senhora) e por mim (finalmente não consegui mais aguentar o dique que segurava toda aquela tristeza que guardava dentro). Mas ao mesmo tempo sentia-me em paz, sabia que a minha amiga e a sua família iam ultrapassar a dor, sabia que os finais trazem novos começos, e senti um grande alívio por finalmente deixar aquela tristeza sair cá para fora. Soube que continuava a ser uma pessoa feliz, talvez até mais feliz que antes.

Uma das maiores descobertas dos últimos tempos para mim foi perceber que, para ser mais feliz, uma das coisas na qual tenho que trabalhar é permitir-me mais tristeza. Parece uma contradição, mas não o é. Sei que tenho ainda bastante trabalho pela frente porque continuo a ter bastante dificuldade em lidar com a tristeza mas acho que com afinco lá chegarei mais tarde ou mais cedo.

E tu, tens o hábito de suprimir alguma das quatro emoções básicas ou achas que lidas bem com todas elas? Pensa se há alguma emoção que te faz sentir especialmente desconfortável, se há alguma emoção da qual tendes a fugir. Ou até se, como eu, tens tendência para processar essa emoção transformando-a noutra. Também pensas que a felicidade é algo mais que uma emoção momentânea como a alegria? Ou achas que ambas são o mesmo? Alguma vez te sentiste triste e ao mesmo tempo estavas feliz? Como sempre gostava de saber a tua opinião sobre este assunto.


Ser feliz estando triste. (ES)

Desde hace bastante tiempo que la psicología y la neurociencia tratan de resolver los misterios de las emociones humanas. Hay estudios que apuntan al hecho de que hay un número reducido de emociones primarias o básicas, y muchos investigadores (como Turner y Plutchik) piensan incluso que las emociones desempeñaron un papel muy importante en la evolución de nuestra especie. Sin embargo, no existe todavía un consenso general sobre estos temas. Algunos estudios apuntan a varios abanicos de emociones básicas que varían entre cuatro a diez emociones diferentes.

De lo que he leído y aprendido, estoy bastante cómoda con la idea de que hay cuatro emociones principales: alegría, tristeza, miedo y ira. Creo que todas las otras emociones más complejas parten de esas cuatro y que en ellas podemos encontrar la clave para comprender nuestros estados emocionales.

Muchas veces estamos tomados por una de esas emociones sin saberlo. Hace poco, Tico escribió sobre los celos y sobre cómo en un momento de su vida no tenía control sobre ese sentimiento. Los sentimientos son interpretaciones conscientes de las emociones. Los celos no son más que una interpretación del miedo de que a la persona que te gusta, le guste más una tercera persona que tu.

Desafortunadamente muchos de nosotros hemos aprendido desde temprano a suprimir nuestras emociones más básicas. Hace relativamente poco tiempo, a través de mucho autoanálisis y con alguna ayuda exterior, descubrí que tengo una tendencia muy fuerte para suprimir la tristeza. Esta tendencia tiene varias razones siendo una de ellas el ejemplo (o la falta de él).

Como con todas las otras herramientas básicas para vivir, aprendemos a gestionar y controlar nuestras emociones de pequeños y a través del ejemplo. No recuerdo ver a mi madre triste nunca, excepto por el fallecimiento de seres queridos. Mi madre era una mujer trabajadora, divorciada y con dos hijas para crear. Creo que era un mecanismo de defensa y preservación que tenía, una manera de mostrarse a ella ya los demás como “fuerte”. Ella transformaba toda la tristeza que pudiera sentir en ira. Y también el miedo siempre estaba un poco disfrazado de ira en el caso de mi madre. Por esto sólo me acuerdo de ella alegre o enfadada. En realidad también sólo vi a mi padre triste una o dos veces aunque lo he visto alegre y enfadado muchas más.

Lamentablemente la tristeza (así como el miedo) es tenida como sinónimo de debilidad en nuestra sociedad y yo, aunque sabiendo que eso no es verdad (que de hecho saber lidiar con la tristeza y con el miedo son señales de fuerza y madurez), tengo también tendencia a suprimir esa emoción. Así como hacía mi madre, cuando un acontecimiento me provoca tristeza yo “reciclo” inmediatamente la emoción y la transformo en ira. No de forma consciente, como dije sólo hace poco tiempo me di cuenta de esto.

Una de las cosas que me hizo constatar mi dificultad para lidiar con la tristeza fue conocer a una persona que había suprimido la ira durante gran parte de su vida. Esta persona había nacido en una familia bastante diferente de la mía, donde lo que estaba mal visto era expresar furia, rabia o indignación, donde nadie gritaba ni se enfadaba nunca.

Hay personas que suprimen sus emociones de alegría porque crecieron o viven en contextos donde estar alegre no parece correcto y muchas otras suprimen el miedo porque creen que expresar esa emoción las hace parecer menos valientes. Lo que es un hecho es que suprimir las emociones crea problemas y desequilibrios emocionales.

En mucha de la bibliografía disponible sobre la cuestión de las emociones básicas, “alegría” y “felicidad” se utilizan como sinónimo y ahí es donde yo me opongo a desacuerdo. En mi opinión la alegría sí es una emoción, o sea un conjunto de reacciones físicas y psíquicas que son desencadenadas por un acontecimiento (que puede ser interior como una memoria o exterior como una discusión). Pero no considero que la felicidad sea una emoción sino un estado o un modo de ser y estar en la vida.

Como tal creo que se puede ser feliz y tener momentos tristes o ser infeliz y estar a veces alegre pues esos conceptos no son opuestos y no se impiden entre sí. Para mí la felicidad tiene que ver con estar en paz, con un contentamiento constante y con aceptar la vida que se desarrolla frente a nosotros. A su vez la alegría está relacionada con la diversión, la animación, el entusiasmo o la gracia.

En mi primer artículo hablo rápidamente del episodio en el que finalmente lloré la muerte de mi madre. No fue inmediatamente después de que ella falleciera, sino unos años después durante el funeral de la madre de una gran amiga. En ese momento me sentía profundamente triste, por mi amiga y por su hermana (porque sabía muy bien por lo que estaban pasando), por su abuela (que lloraba y gritaba de dolor, la pobre señora) y por mí (finalmente no pude aguantar más el dique que sostenía toda aquella tristeza que guardaba dentro). Pero al mismo tiempo me sentía en paz, sabía que mi amiga y su familia iban a superar el dolor, sabía que los finales traen nuevos comienzos, y sentí un gran alivio por finalmente dejar que esa tristeza saliera. Supe que seguía siendo una persona feliz, quizás incluso más feliz que antes.

Uno de los mayores descubrimientos de los últimos tiempos para mí fue percibir que para ser más feliz, una de las cosas en las que tengo que trabajar es permitirme más tristeza. Parece una contradicción, pero no lo es. Sé que todavía tengo mucho trabajo por delante porque todavía tengo dificultades para lidiar con la tristeza, pero creo que con ahínco lo lograré más tarde o más temprano.

Y tú, tienes el hábito de suprimir alguna de las cuatro emociones básicas o crees que leídas bien con todas ellas? Piensa si hay alguna emoción que te hace sentir especialmente incómodo, si hay alguna emoción de la que sueles huir. O incluso si, como yo, tienes tendencia para procesar esa emoción transformándola en otra. También piensas que la felicidad es algo más que una emoción momentánea como la alegría? ¿O crees que ambas son lo mismo? ¿Alguna vez te sentiste triste mientras estando feliz? Como siempre quiero saber tu opinión sobre este asunto.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *