Ser feliz estando triste

Being happy while feeling sad (EN)

Ser feliz estando triste (ES)

Ser feliz estando triste (PT)

Desde há bastante tempo que a psicologia e a neurociência tentam desvendar os segredos das emoções humanas. Há estudos que apontam para o facto de haver um número reduzido de emoções primárias ou básicas e muitos investigadores (como Turner e Plutchik) pensam inclusivamente que as emoções tiveram um papel muito importante na evolução da nossa espécie. Contudo não existe ainda um consenso geral sobre estes temas. Alguns estudos apontam para vários leques de emoções básicas que variam entre quatro a dez emoções diferentes.

Daquilo que li e aprendi estou bastante confortável com a ideia de que há quatro emoções principais: alegria, tristeza, medo e ira. Acredito que todas as outras emoções mais complexas partam dessas quatro e que nelas podemos encontrar a chave para compreender os nossos estados emocionais.

Muitas vezes estamos tomados por uma dessas emoções sem darmos por isso. Há pouco tempo a Tico escreveu sobre o ciúme e sobre como num momento da sua vida não tinha controlo sobre esse sentimento. Os sentimentos são interpretações conscientes das emoções. O ciúme não é mais que uma interpretação do medo de que a pessoa de quem gostas goste mais de uma terceira pessoa do que de ti.

Infelizmente muitos de nós aprendemos desde cedo a suprimir as nossas emoções mais básicas. Há relativamente pouco tempo, através de muita auto-análise e com alguma ajuda exterior, descobri que tenho uma tendência muito forte para suprimir a tristeza. Essa tendência tem várias razões sendo uma delas o exemplo (ou a falta dele).

Como com todas as outras ferramentas básicas para viver, aprendemos a gerir e controlar as nossas emoções de pequenos e através do exemplo. Não me lembro de ver a minha mãe triste nunca, exceptuando pelo falecimento de entes queridos. A minha mãe era uma mulher trabalhadora, divorciada e com duas filhas para criar. Acho que era um mecanismo de defesa e preservação que ela tinha, uma maneira de se mostrar a ela e aos outros como “forte”. Ela transformava toda a tristeza que pudesse sentir em ira. E mesmo o medo estava sempre um pouco disfarçado de ira, por isso só me lembro dela alegre ou zangada. Na realidade também só vi o meu pai triste uma ou duas vezes embora o tenha visto alegre e zangado muitas mais.

Lamentavelmente a tristeza (assim como o medo) é tida como sinónimo de fraqueza na nossa sociedade e eu, mesmo sabendo que isso não é verdade (que de facto saber lidar com a tristeza e com o medo são sinais de força e maturidade), tenho também tendência para suprimir essa emoção. Assim como fazia a minha mãe, quando um acontecimento me provoca tristeza eu “reciclo” imediatamente a emoção e transformo-a em ira. Não de forma consciente, como disse só há bem pouco tempo me apercebi disto.

Uma das coisas que me fez constatar esta minha dificuldade para lidar com a tristeza foi conhecer uma pessoa que tinha suprimido a ira durante grande parte da sua vida. Esta pessoa tinha nascido numa família bastante diferente da minha, onde o que estava mal visto era exprimir fúria, raiva ou indignação, onde ninguém gritava nem se zangava nunca.

Há pessoas que suprimem as suas emoções de alegria porque cresceram ou vivem em contextos onde estar alegre não parece estar correcto e muitas outras suprimem o medo porque acham que exprimir essa emoção as faz parecer menos corajosas. O que é um facto é que suprimir as emoções cria problemas e desequilíbrios emocionais.

Em muita da bibliografia disponível sobre a questão das emoções básicas “alegria” e “felicidade” são utilizadas como sinónimo e aí é onde eu ouso discordar. Na minha opinião a alegria é sim uma emoção, ou seja um conjunto de reacções físicas e psíquicas que são desencadeadas por um acontecimento (que pode ser interior como uma memória ou exterior como uma discussão). Não considero que a felicidade seja uma emoção mas um estado ou um modo de ser e estar na vida.

Como tal creio que se pode ser feliz e ter momentos tristes ou ser infeliz e estar às vezes alegre pois esses conceitos não são opostos e não se impossibilitam entre si. Para mim a felicidade tem que ver com estar em paz, com um contentamento constante e com aceitar a vida que se desenrola à nossa frente. Por sua vez a alegria está relacionada com divertimento, animação, entusiasmo ou graça.

No meu primeiro artigo falo rapidamente do episódio em que finalmente chorei a morte da minha mãe. Não foi logo a seguir a ela falecer mas sim uns anos depois durante o funeral da mãe de uma grande amiga. Nesse momento sentia-me profundamente triste, pela minha amiga e pela sua irmã (porque sabia bem pelo que elas estavam a passar), pela avó dela (que chorava e gritava de dor, a pobre senhora) e por mim (finalmente não consegui mais aguentar o dique que segurava toda aquela tristeza que guardava dentro). Mas ao mesmo tempo sentia-me em paz, sabia que a minha amiga e a sua família iam ultrapassar a dor, sabia que os finais trazem novos começos, e senti um grande alívio por finalmente deixar aquela tristeza sair cá para fora. Soube que continuava a ser uma pessoa feliz, talvez até mais feliz que antes.

Uma das maiores descobertas dos últimos tempos para mim foi perceber que, para ser mais feliz, uma das coisas na qual tenho que trabalhar é permitir-me mais tristeza. Parece uma contradição, mas não o é. Sei que tenho ainda bastante trabalho pela frente porque continuo a ter bastante dificuldade em lidar com a tristeza mas acho que com afinco lá chegarei mais tarde ou mais cedo.

E tu, tens o hábito de suprimir alguma das quatro emoções básicas ou achas que lidas bem com todas elas? Pensa se há alguma emoção que te faz sentir especialmente desconfortável, se há alguma emoção da qual tendes a fugir. Ou até se, como eu, tens tendência para processar essa emoção transformando-a noutra. Também pensas que a felicidade é algo mais que uma emoção momentânea como a alegria? Ou achas que ambas são o mesmo? Alguma vez te sentiste triste e ao mesmo tempo estavas feliz? Como sempre gostava de saber a tua opinião sobre este assunto.


Ser feliz estando triste. (ES)

Desde hace bastante tiempo que la psicología y la neurociencia tratan de resolver los misterios de las emociones humanas. Hay estudios que apuntan al hecho de que hay un número reducido de emociones primarias o básicas, y muchos investigadores (como Turner y Plutchik) piensan incluso que las emociones desempeñaron un papel muy importante en la evolución de nuestra especie. Sin embargo, no existe todavía un consenso general sobre estos temas. Algunos estudios apuntan a varios abanicos de emociones básicas que varían entre cuatro a diez emociones diferentes.

De lo que he leído y aprendido, estoy bastante cómoda con la idea de que hay cuatro emociones principales: alegría, tristeza, miedo y ira. Creo que todas las otras emociones más complejas parten de esas cuatro y que en ellas podemos encontrar la clave para comprender nuestros estados emocionales.

Muchas veces estamos tomados por una de esas emociones sin saberlo. Hace poco, Tico escribió sobre los celos y sobre cómo en un momento de su vida no tenía control sobre ese sentimiento. Los sentimientos son interpretaciones conscientes de las emociones. Los celos no son más que una interpretación del miedo de que a la persona que te gusta, le guste más una tercera persona que tu.

Desafortunadamente muchos de nosotros hemos aprendido desde temprano a suprimir nuestras emociones más básicas. Hace relativamente poco tiempo, a través de mucho autoanálisis y con alguna ayuda exterior, descubrí que tengo una tendencia muy fuerte para suprimir la tristeza. Esta tendencia tiene varias razones siendo una de ellas el ejemplo (o la falta de él).

Como con todas las otras herramientas básicas para vivir, aprendemos a gestionar y controlar nuestras emociones de pequeños y a través del ejemplo. No recuerdo ver a mi madre triste nunca, excepto por el fallecimiento de seres queridos. Mi madre era una mujer trabajadora, divorciada y con dos hijas para crear. Creo que era un mecanismo de defensa y preservación que tenía, una manera de mostrarse a ella ya los demás como “fuerte”. Ella transformaba toda la tristeza que pudiera sentir en ira. Y también el miedo siempre estaba un poco disfrazado de ira en el caso de mi madre. Por esto sólo me acuerdo de ella alegre o enfadada. En realidad también sólo vi a mi padre triste una o dos veces aunque lo he visto alegre y enfadado muchas más.

Lamentablemente la tristeza (así como el miedo) es tenida como sinónimo de debilidad en nuestra sociedad y yo, aunque sabiendo que eso no es verdad (que de hecho saber lidiar con la tristeza y con el miedo son señales de fuerza y madurez), tengo también tendencia a suprimir esa emoción. Así como hacía mi madre, cuando un acontecimiento me provoca tristeza yo “reciclo” inmediatamente la emoción y la transformo en ira. No de forma consciente, como dije sólo hace poco tiempo me di cuenta de esto.

Una de las cosas que me hizo constatar mi dificultad para lidiar con la tristeza fue conocer a una persona que había suprimido la ira durante gran parte de su vida. Esta persona había nacido en una familia bastante diferente de la mía, donde lo que estaba mal visto era expresar furia, rabia o indignación, donde nadie gritaba ni se enfadaba nunca.

Hay personas que suprimen sus emociones de alegría porque crecieron o viven en contextos donde estar alegre no parece correcto y muchas otras suprimen el miedo porque creen que expresar esa emoción las hace parecer menos valientes. Lo que es un hecho es que suprimir las emociones crea problemas y desequilibrios emocionales.

En mucha de la bibliografía disponible sobre la cuestión de las emociones básicas, “alegría” y “felicidad” se utilizan como sinónimo y ahí es donde yo me opongo a desacuerdo. En mi opinión la alegría sí es una emoción, o sea un conjunto de reacciones físicas y psíquicas que son desencadenadas por un acontecimiento (que puede ser interior como una memoria o exterior como una discusión). Pero no considero que la felicidad sea una emoción sino un estado o un modo de ser y estar en la vida.

Como tal creo que se puede ser feliz y tener momentos tristes o ser infeliz y estar a veces alegre pues esos conceptos no son opuestos y no se impiden entre sí. Para mí la felicidad tiene que ver con estar en paz, con un contentamiento constante y con aceptar la vida que se desarrolla frente a nosotros. A su vez la alegría está relacionada con la diversión, la animación, el entusiasmo o la gracia.

En mi primer artículo hablo rápidamente del episodio en el que finalmente lloré la muerte de mi madre. No fue inmediatamente después de que ella falleciera, sino unos años después durante el funeral de la madre de una gran amiga. En ese momento me sentía profundamente triste, por mi amiga y por su hermana (porque sabía muy bien por lo que estaban pasando), por su abuela (que lloraba y gritaba de dolor, la pobre señora) y por mí (finalmente no pude aguantar más el dique que sostenía toda aquella tristeza que guardaba dentro). Pero al mismo tiempo me sentía en paz, sabía que mi amiga y su familia iban a superar el dolor, sabía que los finales traen nuevos comienzos, y sentí un gran alivio por finalmente dejar que esa tristeza saliera. Supe que seguía siendo una persona feliz, quizás incluso más feliz que antes.

Uno de los mayores descubrimientos de los últimos tiempos para mí fue percibir que para ser más feliz, una de las cosas en las que tengo que trabajar es permitirme más tristeza. Parece una contradicción, pero no lo es. Sé que todavía tengo mucho trabajo por delante porque todavía tengo dificultades para lidiar con la tristeza, pero creo que con ahínco lo lograré más tarde o más temprano.

Y tú, tienes el hábito de suprimir alguna de las cuatro emociones básicas o crees que leídas bien con todas ellas? Piensa si hay alguna emoción que te hace sentir especialmente incómodo, si hay alguna emoción de la que sueles huir. O incluso si, como yo, tienes tendencia para procesar esa emoción transformándola en otra. También piensas que la felicidad es algo más que una emoción momentánea como la alegría? ¿O crees que ambas son lo mismo? ¿Alguna vez te sentiste triste mientras estando feliz? Como siempre quiero saber tu opinión sobre este asunto.

O meu próprio #10YearChallenge

My own #10YearChallenge (EN)

Mi propio #10YearChallenge (ES)

O meu próprio #10YearChallenge (PT)

Para as pessoas que estão mais desligadas das redes sociais o “10 Year Challenge” (desafio dos dez anos) é a última tendência viral desses meios. Para participar basta publicar duas fotos lado a lado, uma tirada em 2009 e outra actual (2019).

Esta coisa do #10YearChallenge pôs-me a pensar, não nas diferenças físicas entre a Nico actual de 31 anos e a Nico dez anos mais nova de 2009, mas nas diferenças a nível de estilo de vida e mentalidade. É fácil esquecer quem fomos há dez anos atrás, eu já não me lembro de muitas coisas. Para ajudar na recordação dessa época recorri ao histórico do Facebook, e fui bisbilhotar o que me pareceu ser a vida de outra pessoa, só que era a minha.

Através dessa pesquisa recordei que nessa altura adorava sair à noite com as minhas amigas e amigos. A minha vida era ir à faculdade e sair à noite. Tinha uma vida social super activa com montes de coisas a acontecer, sempre que não estava barricada na Faculdade de Arquitectura numa corrida contra o tempo para acabar algum projecto que tinha deixado para a última (na verdade deixava-os sempre todos). Mas até as noites sem dormir passadas a trabalhar na faculdade eram uma festa. Pelo Facebook percebo também que era bastante mais activa nessa rede social. Todos os dias atualizava o meu status com alguma frase que achava engraçada ou arrojada – ao ler essas frases sinto aqueles arrepios de vergonha alheia (só que é própria) – e fazia montes de comentários nas fotos e status das outras pessoas.  

Em 2009 estava no 1º ano do Mestrado em Design de Moda (mestrado esse que afinal não acabei) e tentava estar no centro do pequeno mundo da moda português o mais que podia, mergulhando de cabeça em todas as oportunidades profissionais que se me apresentassem. Acho que imaginava que em 10 anos estaria a trabalhar como “Senior Designer” nalguma marca de ready-to-wear mais ou menos famosa.  

Nesses tempos demorava mais de uma hora para me arranjar depois de experimentar vários looks e olhar-me ao espelho algumas dezenas de vezes. Dava muito valor à minha imagem, mas principalmente ao que os outros pensavam sobre ela. Sempre me achei naturalmente bonita e para mim o verdadeiro desafio – ao vestir-me, pentear-me, escolher os acessórios e maquilhar-me – sempre foi parecer ousada, fora do comum e ”com estilo”.  E claro parte do desafio era fazer com que tudo aquilo parecesse natural e sem esforço. Na verdade tudo isto me criava muita ansiedade e frustração, porque nem todos os dias conseguia atingir estes objectivos e quando saía de casa a pensar que não estava no “meu melhor” o dia já ia ser uma grande merda. Perdia muito tempo.

Tento lembrar-me de como era a minha saúde naquela época. Ainda tinha muitos dos problemas de saúde que já referi noutros artigos, como as alergias respiratórias, as tonturas matinais e os problemas digestivos. Acho que tinha uma vida pouco sedentária apesar de não ter actividades físicas ligadas ao desporto. Bebia bastante álcool e a minha alimentação era à base de massa, queijo, ovos, carne e pão.

Na verdade não me lembro de muito mais, e tenho mesmo a sensação de serem apenas memórias de uma vida passada. Mas com algum esforço reconheço que não. De facto o que aconteceu foram algumas (bastantes) mudanças no contexto e algum (talvez nem tanto) amadurecimento. Não sei se a Nico de há 10 anos atrás se poderia reconhecer nesta versão actualizada e à primeira vista tão diferente.

Penso que o mais importante neste tipo de reflexão é não nos fixarmos (como acho que a maioria tendemos a fazer) só nas coisas que mudaram para melhor ou para pior, mas tentar perceber o que aprendemos com o passado e o que ele ainda tem para nos ensinar.

Já sabes (se leste alguns artigos anteriores) que me sinto mais em sintonia com o meu corpo e imagem que no passado, e que agradeço todos acontecimentos que me levaram a tomar as rédeas da minha alimentação o que melhorou bastante a minha saúde.

Mas com relação à minha vida social, por exemplo, acho que tenho muito que aprender com a jovem Nico. Hoje em dia mantenho vivas grandes amizades do passado. Essas amizades enchem-me de energia renovada sempre que tenho oportunidade de as reviver, mas esses momentos são escassos. Viver com o suporte de uma rede de amigos próximos fisicamente, com os quais possas estar no dia a dia e com os quais possas contar para ir tomar um café para falar da vida e descontrair, é tão importante para a saúde (mental e física) como ter uma boa alimentação e estar ativo fisicamente. A Nico de 21 anos não gostava nada de estar sozinha, começo a achar que a Nico de 31 gosta demasiado.

Esta reflexão fez-me chegar à conclusão de que tenho que fazer um esforço para alimentar novas amizades, com pessoas que estejam mais perto e que tenham interesses comuns.

Com relação à minha vida profissional tenho que refletir mais um pouco. Tenho a sensação que também ainda há algo que a Nico universitária me poderia ensinar.

Como eras há dez anos atrás? O que consegues lembrar dessa época? O que achas que podias ensinar à tua versão mais jovem? O que é que ela te pode ensinar a ti?


 

Mi propio #10YearChallenge (ES)

Para las personas que están más desconectadas de las redes sociales, el “10 Year Challenge” (desafío de los diez años) es la última tendencia viral de esos medios. Para participar basta publicar dos fotos lado a lado, una hecha en 2009 y otra actual (2019).

Esto del #10YearChallenge me puso a pensar, no en las diferencias físicas entre la Nico actual de 31 años y la Nico diez años más joven de 2009, pero en las diferencias a nivel de estilo de vida y mentalidad. Es fácil olvidar quién un@ fue hace diez años, yo ya no recuerdo muchas cosas. Para ayudar en el recuerdo de esa época recurrí al historial de Facebook, y me puse a husmear lo que me pareció ser la vida de otra persona, pero que era la mía.

A través de esa investigación recordé que en ese momento adoraba salir de fiesta con mis amigas y amigos. Mi vida era ir a la universidad y salir por la noche. En el caso de que no estuviera en la Facultad de Arquitectura en una carrera contra el tiempo para acabar algún proyecto que había dejado para la última hora (en realidad los dejaba siempre todos). Pero hasta las noches sin dormir pasadas trabajando en la universidad eran una fiesta. Por Facebook percibo también que era bastante más activa en esa red social. Todos los días actualizaba mi status con alguna frase que creía graciosa o arrojada – al leer esas frases siento aquellos escalofríos de vergüenza ajena (sólo que es propia) – y hacía muchos de comentarios en las fotos y status de las otras personas.

En 2009 estaba cursando el primer año (en Portugal los másteres son de dos años) del Máster en Diseño de Moda (que no llegué a terminar) y intentaba estar en el centro del pequeño mundo de la moda portuguesa tanto como podía, aprovechando todas las oportunidades profesionales que surgían. Creo que pensaba que en 10 años estaría trabajando como “Diseñadora Senior” en una marca de ready-to-wear más o menos famosa.

En esos tiempos tardaba más de una hora para arreglarme después de probar varios looks y mirarme al espejo algunas decenas de veces. Daba mucho valor a mi imagen, pero principalmente a lo que los demás pensaban sobre ella. Siempre me vi naturalmente guapa y para mí el verdadero desafío – al vestirme, peinarme, escoger los accesorios y maquillarme – siempre fue parecer audaz, fuera de lo común y con estilo. Y claro parte del reto era hacer que todo aquello pareciera natural y sin esfuerzo. En realidad todo esto me creaba mucha ansiedad y frustración, porque no todos los días conseguía alcanzar estos objetivos y cuando salía de casa pensando que no estaba en “mi mejor” el día ya iba a ser una gran mierda. Perdía mucho tiempo.

Intento recordar cómo era mi salud en aquella época. Todavía tenía muchos de los problemas de salud que ya he mencionado en otros artículos, como las alergias respiratorias, los mareos matutinos y los problemas digestivos. Creo que tenía una vida poco sedentaria a pesar de no tener actividades físicas de deporte. Bebía bastante alcohol y mi alimentación era a base de pasta, queso, huevos, carne y pan.

En realidad no recuerdo mucho más, y tengo la sensación de que esto son memorias de una vida pasada. Pero con algún esfuerzo reconozco que no. De hecho lo que sucedió fueron algunos (bastantes) cambios en el contexto y alguna (tal vez ni tanta) madurez. No sé si la Nico de hace 10 años se podría reconocer en esta versión actualizada y a primera vista tan diferente.

Creo que lo más importante en este tipo de reflexión es no fijarnos (como creo que la mayoría tendemos a hacer) sólo en las cosas que cambiaron para mejor (en el caso de algunas personas) o para peor (en el caso de otras), pero tratar de percibir lo que aprendemos con el pasado y lo que él todavía tiene para enseñarnos.

Ya sabes (si al este algunos artículos anteriores) que me siento ahora más en sintonía con mi cuerpo e imagen que en el pasado, y que agradezco todos los acontecimientos que me llevaron a tomar las riendas de mi alimentación, lo que mejoró bastante mi salud.

Pero con respecto a mi vida social, por ejemplo, creo que tengo mucho que aprender de la joven Nico. Hoy en día mantengo vivas grandes amistades del pasado. Esas amistades me llenan de energía renovada siempre que tengo oportunidad de revivirlas, pero esos momentos son escasos. Vivir con el apoyo de una red de amigos cercanos físicamente, con los que puedas estar en el día a día y con los que puedas contar para ir a tomar un café, para hablar de la vida y relajarte, es tan importante para la salud (mental y física) como tener una buena alimentación y estar activo físicamente. A la Nico de 21 años no le gustaba nada estar sola, empiezo a pensar que a la Nico de 31 años le gusta demasiado.

Esta reflexión me hizo llegar a la conclusión de que tengo que hacer un esfuerzo para alimentar nuevas amistades, con personas que estén más cerca y que cob intereses comunes.

Con respecto a mi vida profesional tengo que reflexionar un poco más. Tengo la sensación de que todavía hay algo que la Nico universitaria me podría enseñar.

¿Cómo eras hace diez años? ¿Qué puedes recordar de esa época? ¿Qué crees que podrías enseñar a tu versión más joven? ¿Qué te puede enseñar ella a ti?

Why do people get so bothered by those who question everything?

Why do people get so bothered by those who question everything? (EN)

¿Por qué es que las personas que cuestionan todo incomodan tanto a las demás? (ES)

Porque é que as pessoas que questionam tudo incomodam tanto? (PT)

Frequentemente passo por situações nas que sinto (ou me fazem sentir) que estou a incomodar alguém apenas por questionar o que está socialmente estabelecido como normal. Mesmo sem expressar directamente os meus pontos de vista, e muito menos sem antagonizar ninguém, faço (sem intenção) com que algumas pessoas se sintam desconfortáveis apenas com a minha presença, porque me veem fazer escolhas que não encaixam com os padrões aos quais estão habituadas, ou simplesmente porque sabem que vejo o mundo desde outra perspectiva.

Eu aceito e já estou habituada a causar esse desconforto, e até percebo o sentimento de confusão que se apodera dessas pessoas quando estão diante de alguém que pensa de uma maneira tão diferente da sua, nas coisas que consideram mais básicas (como comer, como vestir, como levar a vida profissional, como viver as relações, etc.) e por isso mais inquestionáveis. O problema não é este desconforto normalmente traduzir-se numa certa hostilidade dirigida à minha pessoa. Não, o problema é que se trata geralmente de uma hostilidade cobarde.

O que quero dizer com hostilidade cobarde são coisas como:

  • mandar bocas “para o ar” que não estão “oficialmente” dirigidas à minha pessoa mas que tanto eu como todos os presentes percebemos que era mesmo para mim;
  • dizer coisas com um tom de brincadeira mas com a intenção de deixar-me desconfortável (talvez para fazer-me sentir como el@s se sentem) ou numa posição desagradável;
  • guardar todos os comentários e opiniões sobre a minha pessoa para o momento em que eu viro costas ou falar mal de mim quando não estou presente.

O que todas estas formas de hostilidade têm em comum, e a razão pela qual digo que são gestos cobardes, é que me tiram a possibilidade de me defender. Se respondo a bocas que não estão formalmente dirigidas a mim, ou reajo mal a coisas ditas “na brincadeira” corro o risco de parecer que tenho a mania da perseguição, ou que me ofendo sem razão.  E obviamente o facto de falar de mim nas minhas costas me tira a possibilidade de expor o meu ponto de vista.

Outra coisa que me chateia nisto é o facto de estas pessoas se sentirem ameaçadas pelo simples facto de que alguém fazer as coisas de maneira diferente. Quem me conhece sabe que não costumo dizer às pessoas coisas como: “devias ser vegan@”, “esses sapatos que usas estão a deformar os teus pés, devias usar uns como os meus”, “a felicidade não depende de teres menos problemas, se queres ser uma vítima quando este problema se resolver tu encontrarás outro para te queixares”, “se tens um problema crónico de saúde devias tentar perceber que mudanças no teu estilo de vida poderão ser benéficas com relação a esse problema”, etc.

Não, eu na realidade talvez diga: “sou vegana pelos animais, pela minha saúde e pelo planeta”; “desde que comecei a usar calçado ‘barefoot’ deixei de ter dores nas ancas e nos joelhos”; “sei que este problema irá passar, mas virão outros, e não posso deixar que a minha felicidade dependa disso”; “sinto-me muito melhor desde que deixei de consumir alimentos com glúten, descobri que afinal alguns dos problemas crónicos que tinha estavam relacionados com o seu consumo”. Mas pelos vistos essas pessoas, na cabeça delas, ouvem alguma versão mais parecida às do parágrafo anterior e não o que realmente expresso. Só pode ser essa a razão, certo? Afinal eu não lhes digo que o que fazem está mal, nem opino sobre como o deviam fazer, nem exprimo julgamentos sobre as suas decisões, então porque é que elas reagem como se eu o fizesse?

Desconfio que quem questiona o estabelecido, cria (na cabeça destas pessoas) a possibilidade de questionamento daquilo que antes era inquestionável para elas. Estes questionamentos criam muitas mais hipóteses de escolha que as que haviam anteriormente, mas elas não querem ter que tomar decisões reais nas suas vidas, porque acham que é mais fácil escolher apenas de entre as possibilidades já delimitadas pela sociedade, do que escolher uma das possibilidades criada por elas próprias.

O que acham sobre isto? Compreendem o que quero dizer? Revêem-se nalguma parte deste meu desabafo? Este texto foi escrito exatamente para pedir ajuda com estas questões. Como acham que devo reagir às hostilidades cobardes? Acham que devo ignorar (que é o que tenho vindo a fazer até agora mas realmente não tem ajudado a fazer com que essas hostilidades me deixem de ser dirigidas)? Acham que devo confrontar as pessoas de alguma maneira específica? Acham que há outra razão pela qual faço as pessoas se sentirem desconfortáveis? Que devo mudar algo na maneira como lido com as pessoas? Qualquer ideia é bem vinda!!


 

Why do people get so bothered by those who question everything? (EN)

I often go through situations in which I feel that I am bothering someone just by questioning what is socially established as normal. Even without directly expressing my point of view, let alone without antagonising anyone, I (unintentionally) make some people feel uncomfortable only with my presence, because they see me making choices that do not fit the standards they are used to, or simply because they know that I see the world from a different perspective.

I accept that and am already used to causing this discomfort, and I even understand the sense of confusion that grips these people when they are face to face with someone who thinks in a way so different from theirs about the things they consider most basic (like eating, dressing , how to lead a professional life, how to manage relationships, etc.) and therefore more unquestionable. The problem is not that this discomfort usually translates into a certain hostility directed at me. No, the problem is that it’s usually what I like to call “coward’s hostility”.

What I mean by “coward’s hostility” are things like:

  • dropping hints that are not “officially” addressed to me but everybody else, including myself, know that are actually directed to me;
  • saying things with a joking tone but with the intention of making me uncomfortable (maybe to make me feel like I make them feel) or putting me in an unpleasant position;
  • making comments and giving opinions as soon as I turn my back or speaking ill of me when I am not present.

What all these forms of hostility have in common, and the reason why I say that they are cowardly gestures, is that they take away from me the possibility of defending myself. If I respond to dropped hints that are not formally addressed to me, or I react badly to things said “in jest” I run the risk of seeming to have delusions of persecution, or that I get offended with no reason. And obviously talking about me behind my back makes it impossible for me defend my own opinions.

Another thing that annoys me is the fact that these people feel threatened by the simple fact that someone does things differently. Those who know me can attest that I don’t usually tell people things like “you should become vegan,” “those shoes that you are wearing are deforming your feet, you should use ones like mine,” “happiness does not depend on having fewer problems, if you want to be a victim, when this problem is solved you will find another one to complain about”, “if you have a chronic health problem you should try to understand what changes in your lifestyle could be beneficial for you” etc.

Instead, what I might actually say is: “I am vegan for the animals, for my health and for the planet”; “since I started wearing ‘barefoot’ shoes I stopped having pain in my hips and knees”; “I know this problem will pass, but others will come, and I can’t let my happiness depend on it”; “I feel much better since I stopped consuming foods with gluten, I discovered that after all some of the chronic problems I had were related to gluten consumption.” But apparently these people, in their head, hear a version more similar to the ones on the previous paragraph and not what it actually express. Only that can be the reason, right? At the end of the day, I do not tell them that what they do is wrong, I do not give opinions about how they should do it (unless asked), nor do I express judgments about their decisions, so why do they react as if I do?

I suspect that anyone who questions what is established creates (in the minds of these people) the possibility of questioning what was previously unquestionable for them. These questions create many more possibilities of choice than the ones they had before, but they do not want to have to make real decisions in their lives, because they think it is easier to choose only from the possibilities already delimited by society, than to choose one of the possibilities created by themselves.

What do you think about this? Do you understand what I mean? Do you see yourself in some part of my outburst? This text was written exactly to ask for help with these questions. How do you think I should react to “coward’s hostilities”? Do you think I should ignore (which is what I have been doing so far but it really has not helped to stop these hostilities from being addressed to me)? Do you think I should confront people in some specific way? Do you think there’s another reason why I make people uncomfortable? Or do you think that I should change the way I deal with people? Any ideas are welcome !!


 

¿Por qué es que las personas que cuestionan todo incomodan tanto a las demás? (ES)

A menudo paso por situaciones en las que siento (o me hacen sentir) que estoy molestando a alguien sólo por cuestionar lo que está socialmente establecido como normal. Incluso sin expresar directamente mis puntos de vista, y mucho menos sin antagonizar a nadie, hago (sin intención) con que algunas personas se sienten incómodas sólo con mi presencia, porque me ven hacer elecciones que no encajan con los patrones a los que están acostumbrados o simplemente porque saben que veo el mundo desde otra perspectiva.

Yo acepto y ya estoy acostumbrada a causar esa incomodidad, e incluso entiendo el sentimiento de confusión que se apodera de esas personas cuando están frente a alguien que piensa de una manera tan diferente de la suya, en las cosas que consideran más básicas y por eso más incuestionables (ej: cómo comer, cómo vestir, cómo llevar la vida profesional, cómo vivir las relaciones, etc.). El problema no es esta incomodidad normalmente traducirse en una cierta hostilidad dirigida a mi persona. No, el problema es que se trata generalmente de una hostilidad cobarde.

Lo que quiero decir con hostilidad cobarde son cosas como:

  • mandar recados “al aire” que no están “oficialmente” dirigidos hacia mí pero que tanto yo como todos los presentes percibimos que eran para mí;
  • decir cosas con un tono de broma pero con la intención de dejarme incómodo o en una posición desagradable;
  • guardar todos los comentarios y opiniones sobre mí para el momento en que me vuelvo la espalda o hablar mal de mí cuando no estoy presente.

Lo que todas estas formas de hostilidad tienen en común, y la razón por la que digo que son gestos cobardes, es que me quitan la posibilidad de defenderme. Si respondo a “recados” que no están formalmente dirigidos a mí, o reajo mal a cosas dichas “de broma”, corro el riesgo de parecer que tengo la manía de la persecución, o que me ofendo sin razón. Y obviamente el hecho de hablar de mí en mis espaldas me quita la posibilidad de exponer mi punto de vista.

Otra cosa que me molesta en esto es que estas personas se sienten amenazadas por el simple hecho de que alguien haga las cosas de manera diferente. El que me conoce sabe que no acostumbro decir a las personas cosas como: “deberías hacerte vegan@”, “esos zapatos que usas están deformando tus pies, deberías usar unos como los míos”, “la felicidad no depende de tener menos problemas, si quieres seguir siendo una víctima cuando este problema se solucione tú encontrarás otro para que quejarte “,” si tienes un problema crónico de salud deberías intentar percibir qué cambios en tu estilo de vida podrán ser beneficiosos para ti”, etc.

No, en realidad quizás yo diga: “soy vegana por los animales, por mi salud y por el planeta”; “desde que empecé a usar calzado ‘barefoot’ dejé de tener dolores en las caderas y en las rodillas”; “sé que este problema pasará, pero vendrán otros, y no puedo dejar que mi felicidad dependa de eso”; “me siento mucho mejor desde que dejé de consumir alimentos con gluten, descubrí que al final algunos de los problemas crónicos que tenía estaban relacionados con su consumo”. Pero por lo visto estas personas, en sus cabezas, oyen alguna versión más parecida a las del párrafo anterior y no lo que realmente expreso. Sólo puede ser esa la razón, ¿verdad? Al final yo no les digo que lo que hacen está mal, ni opino sobre cómo lo debían hacer, ni expreso juicios sobre sus decisiones, entonces ¿por qué reaccionan como si yo lo hiciera?

Desconfio que quien cuestiona lo establecido, crea (en las cabezas de estas personas) la posibilidad de cuestionamento de aquello que antes era incuestionable para ellas. Estos cuestionamientos crean muchas más opciones de elección que las que habían anteriormente, pero ellas no quieren tener que tomar decisiones reales en sus vidas, porque creen que es más fácil escoger sólo entre las posibilidades ya delimitadas por la sociedad, en el lugar de elegir una de las posibilidades creada por ellas mismas.

¿Qué piensas sobre esto? ¿Comprendes lo que quiero decir? ¿Te reconoces en alguna parte de este mi desahogo? Este texto fue escrito exactamente para pedir ayuda con estas cuestiones. ¿Cómo crees que debo reaccionar ante las hostilidades cobardes? ¿Creen que debo ignorarlas (que es lo que he hecho hasta ahora, pero realmente no ha ayudado parar las hostilidades)? ¿Crees que debo confrontar a las personas de alguna manera específica? ¿Creen que hay otra razón por la que las personas se sienten incómodas? ¿Qué debo cambiar algo en la forma en que leído con la gente? ¡Cualquier idea es bienvenida!

When your body talks to you

When your body talks to you. (EN)

Cuando tu cuerpo habla contigo. (ES)

Quando o teu corpo fala contigo. (PT)

Ouves o teu corpo? O que te diz? Quando tens um problema (uma dor, uma doença, uma sensação física estranha, etc.) percebes o que te quer dizer?

Tem sido uma verdadeira benção começar a ouvir e a entender o meu corpo ao longo dos últimos anos. Antes de ter começado a ouvir o meu corpo sentia muitas vezes que ele era meu inimigo. Quando estava doente, enjoada ou com alguma dor pensava coisas como: “que chatice”, “porquê eu?”, “ficar doente agora não dá jeito nenhum”, “mas agora qual é o problema?”. E lá ia queixar-me ao médico, ou tomar aqueles medicamentos que estão sempre ao alcance. Mas na realidade nunca pensava no que era que o meu corpo me estava a querer dizer.

No meu primeiro artigo falei de como tive, durante muitos anos, frequentes enjoos matinais. Despertava com uma enorme sensação de fraqueza e quando me levantava tinha de me sentar ou deitar imediatamente. Até que bebesse água com açúcar o enjoo não passava e cheguei até a desmaiar. Tinha me queixado das tonturas matinais a vários médicos ao longo dos anos e todos diziam que isso era falta de açúcar no sangue e que devia comer algo doce à noite antes de dormir. Quem leu esse artigo talvez se lembre que mais  tarde descobri que na verdade o problema era exactamente o contrário. Na realidade aqueles enjoos matinais não eram nada mais que o meu corpo a alertar-me para o facto de que tinha que parar com o consumo exagerado de açúcar refinado. Olhando para trás não gosto nem de imaginar o que poderia ter acontecido se tivesse ignorado esses sinais durante muito mais tempo.   

Desde muito pequena que sofro com o “flagelo” do herpes labial. Não me lembro de existir sem episódios mais ou menos frequentes de “herpes simplex” a acontecerem no meu lábio superior. Sempre relativamente ao centro de maneira que, às vezes, quando a inflamação piorava, eu ficava com o lábio a tocar na ponta do nariz. Estas crises sempre mexeram muito com a minha auto-estima e com a minha qualidade de vida. Quando tinha uma crise de herpes não tinha vontade nem de existir. A dor física misturada com comichão que o vírus provoca, aliada ao inchaço e à erupção de pus amarelo, que se traduz visualmente em algo bastante nojento, faziam com que falar e comer fosse um tormento, e com que sair de casa e expor-me aos olhares das outras pessoas parecesse um pesadelo. Mas a verdade é que acontecia demasiadas vezes para que a minha vida normal pudesse realmente parar cada vez que tinha uma crise. Fui bastantes vezes ao médico por causa de crises de herpes que pareciam não ter fim. Os médicos nunca me deram muita esperança de que alguma vez pudesse controlar os episódios de herpes, receitavam os típicos anti-virais em comprimido ou em pomada e diziam-me que não havia nada mais a fazer.  

Desde à uns anos para cá, comecei a tentar observar a relação que o herpes tinha com o meu humor e estado mental, com a minha alimentação, e com o meu ciclo menstrual.

Desde que tive o período pela primeira vez, lá para os 13 anos de idade, lembro-me de ter dores menstruais lancinantes. Essas dores diminuíram um pouco durante os anos em que tomei a pílula anticoncepcional e voltaram em força quando deixei de a tomar. Durante cerca de três ou quatro horas, no primeiro dia do meu ciclo, ficava completamente incapacitada pela dor. Não conseguia nem pensar, estar de pé ou sentada era muito difícil, tinha enjoos, tonturas e calafrios, muitas cólicas, diarreia, sentia todo o corpo dorido, a vulva inchada, as pernas pesadas. Passava essas horas entre a casa de banho e o sofá, enrolada em posição fetal. Mais uma vez os médicos não ajudaram muito, a pílula anticoncepcional era a única solução apontada e os medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios eram receitados para “poder fazer uma vida normal”.

Há algum tempo comecei também a perguntar-me se realmente teria que viver com aquelas dores mensais até à menopausa. Comecei a ler sobre o assunto e também a falar sobre isso com a minha irmã, especialmente a partir do momento em que ela começou a estudar nutrição holística.

Voltando à questão do herpes. Percebi que o herpes “aparecia” sobretudo se pelo menos dois destes factores se juntavam:

  • Ter momentos de grande stress emocional, como discussões, ter que tocar em temas sensíveis com alguém importante para mim, ou quando algo me causa muita vergonha ou sensação de desmerecimento;  
  • Consumir grandes quantidades de chocolate ou frutos secos e sementes (ou a junção de todos);
  • Estar no final do ciclo menstrual (fase lútea).

Além disso percebi que normalmente o meu estado de ânimo piorava bastante no final do ciclo menstrual, o que fazia com que nessa altura os momentos de stress emocional também fossem mais propícios.

As coisas começaram a fazer ainda mais sentido quando a Tico me comentou que tinha aprendido nas aulas dela, que a ativação do herpes e o seu agravamento, estavam bastante relacionados com um aminoácido chamado arginina. O que ela me explicou, e que eu depois pude verificar através de artigos científicos online, foi que este aminoácido é necessário para a expressão das funções do vírus, ou seja essencial para que o vírus latente desperte e se manifeste (quem tem herpes vive com ele no estado latente até que volta “a aparecer”, e quando a lesão se cura o vírus volta ao estado adormecido). Por outro lado existe um aminoácido análogo à arginina, a lisina, que ajuda na supressão do vírus. A lisina é reconhecida pelo vírus como se fosse arginina mas ao contrário da segunda não possibilita a sua multiplicação.

Nesse sentido, tanto como forma de prevenção como de luta contra o herpes, a alimentação é muito importante. Pois tanto a arginina como a lisina se encontram em doses maiores ou menores na maioria dos alimentos. – Talvez seja também importante referir que embora estes dois aminoácidos sejam muito importantes para o normal e saudável funcionamento do organismo, apenas a lisina é considerada um aminoácido essencial (não é produzida no corpo humano tendo que se obter do exterior, através da alimentação ou suplementação), pois a arginina pode sintetizada endogenamente por humanos saudáveis. – Por exemplo o chocolate, o coco, os frutos secos e as sementes têm uma grande quantidade de arginina e muito pouca lisina. Por outro lado a beterraba, a maçã, a manga, o abacate, os figos e os pêssegos, entre outras frutas e vegetais têm grandes quantidades de lisina e menores quantidades de arginina.

Como os episódios de manifestação do herpes me acontecem maioritariamente durante os 12 dias antes do período decidi, nessa fase do meu ciclo, cortar com os alimentos que aportavam grandes doses de arginina e baixas de lisina e, para ajudar na prevenção, comprei um suplemento de lisina para tomar caso achasse que as possibilidades de despertar o herpes (por causa de algum pico de stress imprevisto) tivessem aumentado nalgum momento específico.

O resultado com relação à prevenção do herpes tem sido extraordinário. Vão fazer 5 meses que comecei esta experiência e tenho conseguido manter o vírus adormecido.

Mas o melhor é que esta simples mudança cíclica de alimentação também veio apaziguar as minhas dores menstruais. Entretanto andei a pesquisar sobre isso e, apesar de não haver muita informação científica disponível, parece que o consumo de frutos secos e sementes (e neste caso o seu não consumo) podem ajudar a reequilibrar os desequilíbrios hormonais que podem ser a causa de oscilações de humor e menstruações dolorosas.

Resumindo, mais uma vez, ao ouvir o meu corpo, não só aquilo o que ele me diz fisicamente mas também as expressões físicas dos meus estados emocionais, e ao analisar a minha alimentação e redesenhá-la, consegui melhorar bastante a minha qualidade de vida no que diz respeito a estes dois problemas crónicos, tudo isto sem a ajuda de medicamentos nem de médicos.

No outro dia veio-me um velho e recorrente pensamento à cabeça: “Que bom que seria que pudesse curar o raio do herpes definitivamente”.  Mas surpreendentemente outro pensamento se seguiu: “Não, na realidade não. Na verdade o herpes é uma das maneiras que o meu corpo tem de me dizer que estou a fazer algo mal. Quando me apercebo que o meu herpes labial está a ponto de despontar (quem o tem sabe que uma sensação muito particular, como um ardor localizado, precede o primeiro sinal visível) já sei que é porque me estou a deixar levar pelo stress e pelos pensamentos negativos, se não fosse esse aviso quem sabe os danos que poderia provocar até que o corpo me desse outro sinal mais forte.

Estas não foram as únicas vezes que o meu corpo me disse que algo não estava bem e eu ouvi. Mas basta uma ou duas para ilustrar o como a minha vida mudou quando percebi que uma dor não é o corpo “a ser chato” mas sim a ser o meu melhor companheiro.

Espero não ter sido eu a chata com tantos detalhes técnicos ou pouco agradáveis, o meu objectivo com este texto não é mais do que empoderar-te para ouvir o teu corpo e procurar soluções a longo prazo, sem riscos nem efeitos secundários, para os teus próprios problemas de saúde.

Escuta o teu corpo. Sentes alguma coisa fora do comum? Sentes algo que já vem sendo habitual mas que sabes que não é normal? O que vais fazer quanto a isso? Meter tudo para baixo do tapete com um remédio rápido mas de curta duração? Ou vais parar para ouvir realmente, dialogar com o teu corpo, analisar os teus comportamentos e investigar o que podes fazer para solucionar o problema?


 

When your body talks to you. (EN)

Do you listen to your body? what does it tell you? When you have a problem (a pain, a disease, an odd physical sensation, etc.) do you understand what it wants to tell you?

It has been a real blessing to start listening and understanding my body throughout the last few years. Before I started to listen to my body I used to feel that it was my enemy.  When I was hill, sick to my stomach or having any ache I used to think: “what a pain in the ass”, “why me?”, “this is the worst timing to be sick!”, “what is wrong with me now?”. And there I was complaining to the doctor or taking those meds that are very accessible. In truth I never thought of what my body was trying to tell me.

In my first article I wrote about my frequent morning sickness that went on for many years. I would wake up with a huge weakness sensation and when standing up, I would have to seat or lay down immediately. I even passed out at times and this sickness would only go away after drinking sugar water. Over the years I had complaint to several doctors about my dizziness and all of them said the same, that it was low blood sugar and therefore I should eat something sweet at night before bed time. Whoever read that article might recall that later I found out that in truth the problem was the exact opposite. The morning sickness was indeed my body trying to alert myself for the fact that I was consuming way too much refined sugar. Looking back I can’t imagine what might have happened if I had ignored those symptoms for a longer period of time.

Since I was a little child that I suffer with cold sores. Since I can remember I always had those episodes more or less frequent of herpes simplex, in my upper lip. Right in the center of my lip which sometimes, when the inflammation got worse, my lip would touch the tip of my nose. Those flares always disturbed my self-esteem and quality of life. I didn’t even feel like being alive once a herpes flare started to show up. The physical pain mixed up with the itchiness provoked by the virus, plus the swelling and the yellow pus outbreak (that visually turns out pretty disgusting), would make eating or talking a real torment, and leaving the house to get exposed to prying eyes seemed like a nightmare. Actually, this would happen so often that my regular life couldn’t stop every time a herpes outbreak would start. I’ve seen the doctor many times due to this attacks that seemed to be endless. Doctors never gave me any hope to believe that those episodes would ever be in control, they would prescribe the standard antiviral pills or ointment and just say that there wasn’t anything else that could be done.

Since a few years ago, I began observing the relationship between the cold sores and my mood and state of mind, with my diet and with my menstrual cycle.

Since when I had my first period, I think by the age of 13, I remember having harrowing menstrual cramps. These pain subsided a little during the years I took the contraceptive pill and came back when I stopped taking it. For about three or four hours, on the first day of my cycle, I was completely incapacitated by the pain. I couldn’t even think, standing or sitting was very difficult, I had nausea, dizziness and chills, many cramps, diarrhea, my whole body ached, my vulva felt swollen and my legs heavy. I would spend these hours between the bathroom and the sofa, rolled up in fetal position. Again the doctors did not help much, the contraceptive pill was the only solution pointed out and the analgesic and anti-inflammatory drugs were prescribed to “be able to lead a normal life.”

Some time ago I also began to wonder if I really would have to live with those monthly aches until reaching the menopause. I started reading about it and also talking about it with my sister, especially from the time she started studying holistic nutrition.

Back to the herpes subject. I noticed that cold sores “appeared” especially if at least two of these factors happened:

  • Having moments of great emotional stress, such as fights and arguments, having to touch sensitive subjects with someone important to me, or when something causes me a lot of embarrassment or a sense of unworthiness;
  • Consuming large quantities of chocolate or nuts and seeds (or the mix of it all);
  • Being at the end of the menstrual cycle (luteal phase).

Besides this, I realised that my mood usually got worse at the end of the menstrual cycle, which also made the emotional stress moments more propitious.

Things started to make even more sense when Tico told me that she had learned in her classes that herpes activation and its aggravation were closely related to an amino acid called arginine. What she explained to me, and which I later verified through online scientific articles, was that this amino acid is necessary for the expression of virus functions, meaning that it is essential for the latent virus to awaken and manifest itself (whoever has herpes lives with it latently until it bursts again, and when the lesion heals the virus returns to its dormant state). On the other hand there is an amino acid analogous to arginine, this one named lysine, which helps in suppressing the virus. Lysine is recognised by the virus as if it were arginine but unlike the second it does not allow its multiplication.

In this sense, nutrition is very important when it comes to prevention and fighting herpes. Because both arginine and lysine are found in higher or lower doses in most foods. – It may also be important to note that although these two amino acids are very important for the normal and healthy functioning of the body, only lysine is considered to be an essential amino acid (it is not produced by the human body and has to be obtained through food or supplements), since arginine can be synthesized endogenously by healthy humans. – For example, chocolate, coconut, nuts and seeds have a large amount of arginine and very little lysine. On the other hand beets, apples, mangoes, avocados, figs and peaches, among other fruits and vegetables have large amounts of lysine and smaller amounts of arginine.

Since my herpes outbreaks occur mostly during the 12 days before menstruation, I decided to cut back on foods that had large doses of arginine and low lysine, at this stage of my cycle, and to help with prevention I got a lysine supplement to take if I thought that the chances of a cold sore bursting (because of some unforeseen peak of stress for example) had increased in some specific moment.

The result regarding herpes prevention has been extraordinary. It has been close to 5 months since I started this experiment and I have managed to keep the virus at bay.

But the best thing is that this simple cyclical shift in the foods I eat has also come to appease my menstrual cramps. In the meantime I have been researching this, and although there is not much scientific information available, it seems that the consumption of nuts and seeds (and in this case their non-consumption) can help to rebalance the hormonal imbalances that may be the cause of oscillations of mood and painful periods.

Summing up, once again, by listening to my body, not only what it tells me physically but also the physical expressions of my emotional states, and by analysing my diet and redesigning it, I was able to improve my quality of life a lot with regard to these two chronic problems, all without the help of medicines or doctors.

The other day an old recurring thought came to me: “It would be so nice if I could cure the damn herpes for good.” But surprisingly another thought followed: “No, not really. In fact cold sores are one of the ways my body has to tell me that I am doing something wrong. When I realize that my cold sores are on the verge of emerging (whoever has them knows that a very particular sensation, like a localised burning, precedes the first visible signs) I already know that it is because I am letting myself go with stress and negative thoughts, if it had not been for this warning who knows the damage it could cause until the body gave me another stronger warning.

These were not the only times my body told me that something was not right and I heard it. But I guess just one or two are enough to illustrate how my life changed when I realised that pain is not my body being “a jerk” but rather being my best friend.

I hope I have not been too boring with so many technical or unpleasant details, my goal with this text is to empower you to listen to your body and look for long-term solutions, without risks or side effects, for your health problems.

Listen to your body. Do you feel anything out of the ordinary? Do you feel something that is already usual but you know it is not normal? What are you going to do about it? Put everything underneath the carpet with a quick but short-lasting remedy? Or are you going to stop to really listen and dialogue with your body, analyse your behaviours and investigate what you can do to solve the problem?


 

Cuando tu cuerpo habla contigo. (ES)

¿Oyes tu cuerpo? ¿Qué te dice? Cuando tienes un problema (un dolor, una enfermedad, una sensación física extraña, etc.) te das cuenta de lo que quieres decir?

Ha sido una verdadera bendición empezar a escuchar y entender mi cuerpo a lo largo de los últimos años. Antes de haber comenzado a oír mi cuerpo sentía muchas veces que él era mi enemigo. Cuando estaba enferma, mareada o con algún dolor pensaba cosas como: “que desastre”, “¿por qué yo?”, “ponerme enferma ahora no me va nada bien”, “¿pero ahora cuál es el problema?”. Y luego me iba a quejarme al médico, o tomaba esos medicamentos que están siempre al alcance. Pero en realidad nunca pensaba en lo que mi cuerpo me quería decir.

En mi primer artículo hablé de cómo tuve, durante muchos años, frecuentes mareos matutinos. Despertaba con una enorme sensación de debilidad y cuando me levantaba tenía que sentarme o acostarme inmediatamente. Hasta que bebiera agua con azúcar el mareo no pasaba y llegué hasta a desmayarme. Me quejé de los mareos matutinos a varios médicos a lo largo de los años y todos decían que aquello era falta de azúcar en la sangre y que tenía que comer algo dulce por la noche antes de dormir. Quienes han leído este artículo quizás recuerden que más tarde descubrí que en realidad el problema era exactamente lo contrario. En realidad, esos mareos matinales no eran más que mi cuerpo advirtiéndome del hecho de que tenía que parar con el consumo exagerado de azúcar refinado. Mirando hacia atrás no me gusta ni imaginar lo que podría haber ocurrido si hubiera ignorado esas señales durante mucho más tiempo.

Desde muy pequeña que sufro con el “flagelo” del herpes labial. No recuerdo mi existencia sin episodios más o menos frecuentes de “herpes simplex” ocurriendo en mi labio superior. Siempre relativamente al centro de manera que, a veces, cuando la inflamación empeoraba, el labio me llegaba a tocar la punta de la nariz. Estas crisis siempre se han bajado mucho mi autoestima y mi calidad de vida. Cuando tenía una crisis de herpes no tenía ganas ni de existir. El dolor físico mezclado con picor que el virus provoca, aliado a la hinchazón y la erupción de pus amarillo, que se traduce visualmente en algo bastante asqueroso, hacían que hablar y comer fuera un tormento, y que salir de casa y exponerme a las miradas de las otras personas pareciera una pesadilla. Pero la verdad es que sucedía demasiadas veces para que mi vida normal pudiera realmente parar cada vez que tenía una crisis. Fui bastantes veces al médico a causa de crisis de herpes que parecían no tener fin. Los médicos nunca me dieron mucha esperanza de que alguna vez pudiera controlar los episodios de herpes, recetaban los típicos anti-virales en comprimido o en crema y me decían que no había nada más que hacer.

Desde hace unos años, empecé a observar la relación que el herpes tenía con mi estado de ánimo y estado mental, con mi alimentación, y con mi ciclo menstrual.

Desde que tuve la regla por primera vez, creo que a los 13 años, me acuerdo de tener dolores menstruales lancinantes. Estos dolores disminuyeron un poco durante los años en que tomé la píldora anticonceptiva y volvieron en fuerza cuando dejé de tomarla. Durante cerca de tres o cuatro horas, en el primer día de mi ciclo, estaba completamente incapacitada por el dolor. No podía ni pensar, estar de pie o sentada era muy difícil, tenía mareos y escalofríos, muchos cólicos, diarrea, sentía todo el cuerpo dolorido, la vulva hinchada, las piernas pesadas. Pasaba esas horas entre el baño y el sofá, enrollada en posición fetal. Una vez más los médicos no ayudaron mucho, la píldora anticonceptiva era la única solución apuntada y los medicamentos analgésicos y anti-inflamatorios eran recetados para “poder hacer una vida normal”.

Hace algún tiempo empecé también a preguntarme si realmente tendría que vivir con esos dolores mensuales hasta la menopausia. Comencé a leer sobre el tema y también a hablar de ello con mi hermana, especialmente a partir del momento en que ella empezó a estudiar nutrición holística.

Volviendo al tema del herpes. Percibí que el herpes “aparecía” sobre todo si al menos dos de estos factores se juntaban:

  • Tener momentos de gran estrés emocional, como discusiones, tener que tocar en temas sensibles con alguien importante para mí, o cuando algo me causa mucha vergüenza o sensación de desmerecimiento;
  • Consumir grandes cantidades de chocolate o frutos secos y semillas (o la unión de todos);
  • Estar al final del ciclo menstrual (fase lútea).

Además, percibí que normalmente mi estado de ánimo empeoraba bastante al final del ciclo menstrual, lo que hacía que en ese momento los picos de estrés emocional también fueran más propicios.

Las cosas empezaron a hacer aún más sentido cuando Tico me comentó que había aprendido en sus clases, que la activación del herpes y su agravamiento, estaban bastante relacionados con un aminoácido llamado arginina. Lo que ella me explicó, y que después pude comprobar a través de artículos científicos online, fue que este aminoácido es necesario para la expresión de las funciones del virus, o sea esencial para que el virus latente despierte y se manifieste (quien tiene herpes vive con en el estado latente hasta que vuelve “a aparecer”, y cuando la lesión se cura el virus vuelve al estado dormido). Por otro lado existe un aminoácido análogo a la arginina, la lisina, que ayuda a la supresión del virus. La lisina es reconocida por el virus como si fuera arginina pero al contrario de la segunda no posibilita su multiplicación.

En ese sentido, tanto como forma de prevención como de lucha contra el virus, la alimentación es muy importante. Pues tanto la arginina como la lisina se encuentran en dosis mayores o menores en la mayoría de los alimentos. – Quizás sea también importante señalar que aunque estos dos aminoácidos son muy importantes para el normal y saludable funcionamiento del organismo, sólo la lisina se considera un aminoácido esencial (no se produce en el cuerpo humano teniendo que obtenerse del exterior, a través de la alimentación o suplementación), pues la arginina puede ser sintetizada endógenamente por los humanos sanos. – Por ejemplo el chocolate, el coco, los frutos secos y las semillas tienen una gran cantidad de arginina y muy poca lisina. Por otro lado la remolacha, la manzana, la manga, el aguacate, el higo y le melocotón, entre otras frutas y vegetales tienen grandes cantidades de lisina y menores cantidades de arginina.

Como los episodios de manifestación del herpes me suceden mayoritariamente durante los 12 días antes del período, decidí, en esa fase de mi ciclo, cortar con los alimentos que aportan grandes dosis de arginina y bajas de lisina y, para ayudar en la prevención, compré un suplemento de lisina para tomar veo que las posibilidades de despertar el herpes (debido a algún pico de estrés imprevisto) han aumentado en algún momento específico.

El resultado con respecto a la prevención del herpes ha sido extraordinario. Hace 5 meses que empecé esta experiencia y hasta ahora he conseguido mantener el virus dormido.

Pero lo mejor  de todo es que este simple cambio cíclico de alimentación también vino a apaciguar mis dolores menstruales. He estado investigando sobre esto y, a pesar de que no hay mucha información científica disponible, parece que el consumo de frutos secos y semillas (y en este caso su no consumo) pueden ayudar a re-equilibrar los desequilibrios hormonales que pueden ser la causa de oscilaciones de humor y menstruaciones dolorosas.

Resumiendo, una vez más, al oír mi cuerpo, no sólo lo que él me dice físicamente, sino también las expresiones físicas de mis estados emocionales, y al analizar mi alimentación y rediseñarla, logré mejorar bastante mi calidad de vida en lo que se refiere a estos dos problemas crónicos, todo ello sin la ayuda de medicamentos ni de médicos.

El otro día me vino un viejo y recurrente pensamiento a la cabeza: “Qué bueno que sería si pudiera curar el maldito del herpes de una vez”. Pero sorprendentemente otro pensamiento se siguió: “No, en realidad no. En realidad el herpes es una de las maneras que mi cuerpo tiene para decirme que estoy haciendo algo mal. Cuando me doy cuenta de que mi herpes labial está a punto de despuntar (quien lo tiene sabe que una sensación muy particular, como un ardor localizado, precede la primera señal visible) ya sé que es porque me estoy dejando llevar por el estrés y los pensamientos negativos, si no fuera ese aviso quien sabe los daños que podría provocar hasta que el cuerpo me diera otra señal más fuerte.

Estas no fueron las únicas veces que mi cuerpo me dijo que algo no estaba bien y lo oí. Pero basta con una o dos para ilustrar cómo mi vida cambió cuando percibí que un dolor no es el cuerpo “fastidiando” sino siendo mi mejor compañero.

Espero no haber sido muy aburrida con tantos detalles técnicos o poco agradables, mi objetivo con este texto no es más que empoderarte para oír tu cuerpo y buscar soluciones a largo plazo, sin riesgos ni efectos secundarios, para los tuyos propios problemas de salud.

Escucha tu cuerpo. ¿Sientes algo fuera de lo común? ¿Sientes algo que ya viene siendo habitual pero que sabes que no es normal? ¿Qué vas a hacer en cuanto a eso? ¿Meter todo bajo la alfombra con un remedio rápido pero de corta duración? ¿O vas a parar para escuchar realmente, dialogar con tu cuerpo, analizar tus comportamientos e investigar lo que puedes hacer para solucionar el problema?

Cheers to New Year’s resolutions

Cheers to New Year’s resolutions (EN)

Un brindis a las resoluciones de Año Nuevo (ES)

Um brinde às resoluções de Ano Novo (PT)

Muita gente diz que as resoluções de ano novo são um engano e que ninguém as cumpre. Para mim a entrada no novo ano já foi várias vezes o marco de grandes mudanças.

No final de 2014 decidi deixar de consumir produtos de origem animal, 5 anos antes já tinha deixado de comer carne e no início de 2015 deixei primeiro o peixe e depois os ovos e os laticínios. Em Fevereiro desse mesmo ano já tinha uma alimentação 100% vegetal e ao longo desse ano fui-me informando cada vez mais para saber que outros produtos do dia a dia continham ingredientes de origem animal ou tinham utilizado algum tipo de exploração animal (como os produtos testados em animais) até que os deixei de consumir todos. Faz 4 anos que tomei essa resolução de ano novo, foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida.

No final do ano 2017 decidi deixar de fumar, desta vez decidi que guardaria algumas exceções para eventos realmente especiais nos quais me apetecesse desfrutar de um ou dois cigarros. Mas tinha que ser algo mesmo excepcional, se não já me via a voltar a fumar todos os fins de semana cada vez que tinha um jantar com amigos. Decidi que casamentos de amigos, a minha festa de anos e o jantar de ano novo seriam as exceções. Em Novembro já passei o mês sem fumar. No início de Dezembro tive um casamento no qual decidi então abrir a exceção. Os cigarros que fumei nesse dia souberam-me bem, mas no dia seguinte tinha tosse, e uma sensação de mau gosto na boca que não passava por mais que escovasse os dentes e a língua. Na noite da passagem de ano voltei a fumar, mas na realidade era como se, em cada cigarro que acendia, procurasse o prazer que em tempos senti ao fumar mas não o encontrasse. Isso fez com que fumasse bastante nessa noite, e a manhã seguinte tinha outra vez a garganta irritada e a boca áspera. A verdade é que embora nunca tenha pensado em deixar definitivamente os cigarros, em 2018 não tive vontade de abrir exceções em nenhuma das oportunidades que tive. Mais uma vez realizei a minha resolução de ano novo e sinto-me muito grata por isso.

Este ano decidi que em 2019 não vou consumir bebidas alcoólicas. Há várias razões pelas quais tomo esta decisão mas a principal é pura curiosidade. Tenho lido sobre os efeitos do álcool na destruição da microbiota, sei que dificulta o trabalho das muitíssimas funções do fígado, sem falar das ressacas no dia seguinte ou mesmo das ocasionais perdas de controlo que me fazem arrepender de ter bebido tanto. Tenho uma enorme curiosidade de saber que efeitos tem realmente o álcool no meu organismo. Como já consumo bebidas alcoólicas há bastante tempo e de forma mais ou menos regular (todas as semanas 2 a 10 copos), a única forma de perceber esses efeitos é retirar o álcool durante um longo período de tempo e analisar as mudanças.

Sinto que socialmente vai ser um desafio. Ao contrário do tabaco que já é universalmente reconhecido como algo mau para a saúde, o álcool (acompanhado do café e do açúcar) é uma das drogas mais bem vistas socialmente. Tenho a experiência pessoal de ir contracorrente em algumas características de estilo de vida, e por isso já senti na pele o quão incomodadas algumas pessoas se sentem quando dizes que não fazes as coisas como elas acham que se deviam fazer. Mas decidi que não vou tecer muitas expectativas, nem tentar prever que reacções esta minha mudança irá provocar. Em vez disso vou observar e analisar o que acontece e dentro de um ano conto-vos como correu a experiência, quer a nível social, quer a nível pessoal. O que acham?

Voltando à questão das resoluções: Fazes resoluções de ano novo? Porque achas que não consegues cumprir as tuas resoluções de ano novo? Ou pelo contrário, se as cumpres, o que achas que faz com que tenhas êxito?

Pela minha experiência acho que para conseguir cumprir uma resolução de ano novo essa resolução tem que:

  • Ter uma razão forte por detrás – se não tens razões fortes para fazer algo o mais certo é que acabes por desistir frente às primeiras dificuldades;
  • Ter objetivos concretos – beber menos ou ir mais ao ginásio não é algo muito concreto, os limites definidos ajudam a manter o enfoque no objetivo, beber apenas um copo por semana já ou ir ao ginásio todas as semanas já são coisas bastante mais concretas;
  • Ser algo realista – se não for algo realmente possível de realizar, ou algo que dependa de muitos fatores que não controlas então vai ser muito mais difícil que consigas cumprir.

Para mim a grande vantagem das resoluções de ano novo são os desafios. Ao criar uma resolução estou a desafiar-me a mudar coisas que considero importantes para viver melhor, para ser mais feliz, ou simplesmente para provar a mim mesma que consigo. A sensação de chegar ao final do ano com mais uma resolução cumprida é muito gratificante. Na verdade ao longo do ano fazemos promessas (pessoais e profissionais) a mais ou menos pessoas, mas as promessas que fazemos a nós mesmos tendem a ser as que acabamos por não cumprir. A resolução de ano novo não é mais que uma promessa ou compromisso com o nosso eu futuro, e arrisco dizer que esse tipo de promessas devia ter sempre a nossa prioridade.

Qual é a tua resolução para este ano novo?


 

Cheers to New Year’s resolutions (EN)

Many people say that New Year’s resolutions are a deception and that nobody can accomplish them. To me, the start of the new year has been many times the mark for great changes.

Towards the end of 2014 I decided to quit consuming animal products, 5 years prior to that I had given up of eating meat and in the beginning of 2015 I quit eating fish and then the eggs and dairy. In February I was already eating a 100% plant based diet and along that same year I gathered more information to find out what other daily products contain animal source ingredients or exploited animals in some way (such as products tested on animals) until I finally stopped consuming all of them. It has been 4 years since I took that new year’s resolution, was one of the best decisions of my life.

In the end of 2017 I decided to quit smoking but this time I determined that I would allow some exceptions in events that I consider really important and in which I feel like smoking a couple cigarettes. But it had to be an exception, otherwise I could see myself smoking every weekend and every time I had a dinner with friends. Friend’s weddings, my birthday party and the New Year’s Eve would be my exceptions. In November I did not smoke.  In the beginning of December I attended a wedding and that’s when I opened an exception. The cigarettes I smoked during that day tasted great, yet the next day I had cough and a bad taste sensation in my mouth that wouldn’t go away even after brushing my teeth and tongue. On the New Year’s Eve I smoked again but as a matter of fact, in every cigarette I lighted up, I kept searching for the pleasure I once felt while smoking but couldn’t find it this time. This made me smoke way too much throughout that night, and on the following morning I had a sore throat and rough mouth. The truth is that, despite I had never thought about definitely quit smoking, in 2018 I didn’t feel like opening exceptions to any opportunity. Once again I accomplished my New Year’s resolution and am very grateful for that.

This year I have decided that in 2019 I will not drink any alcoholic beverage. There are many reasons why I’m making this decision but the main one is pure curiosity. I have been reading about the effects alcohol has in the microbiome, I know it sets back many of the liver functions, let alone the hangovers on the day after or even the loss of control that make me regret drinking so much. I have such curiosity in finding out what effects does the alcohol really has on my body. Since I have been drinking alcoholic beverages for quite a long time, with some regularity (2 to 10 glasses every week), the only way of knowing those effects on my body is to quit the alcohol consumption for a long period of time and analyse the changes.

I feel like socially it will be challenging. In contrary to the tobacco, that is already universally recognised as harmful to our health, alcohol (as well as coffee and sugar) is still a social accepted drug. I have experienced going countercurrent in some lifestyle features and therefore have felt on my own skin how disturbed some people feel when you say that you don’t do things the way they think they’re supposed to be done. However I decided not to build up expectations nor try to predict what reactions will be triggered by this change. Instead I will observe and analyse what happens and in one year from now I’ll tell you how this experience went, both on a social and personal level. What do you reckon?

Back to the resolutions: Do you make any New Year’s resolutions? Why do you think you cannot accomplish them? Or in contrary, if you do accomplish them, what makes it successful?

From my experience I think that in order to accomplish a New Year’s resolution, it needs to:

  • Have a strong reason behind it – if you do not have strong reasons to make something happen, the more likely is for you to give up when the first obstacles show up;
  • Have specific deadlines – drinking less alcoholic beverages or work out more times it’s not very precise, deadlines help to focus on the goal;
  • Be realistic – if it isn’t something really possible to achieve, or something that depends on many factors that you cannot control, then it will be more difficult for you to accomplish.

For me the great advantage of New Year’s resolutions are the challenges. By creating a resolution I’m challenging myself to change things which I consider important to have a better life, be happier or simply to prove to myself that I’m able to do so. The feeling of getting towards the end of the year with one more accomplished resolution is very rewarding. In fact, throughout the year we make promises (personal and professional) to more or less people, but those we make to ourselves tend to be the ones we don’t meet. New Year’s resolutions are not more than a promise or commitment with our future self and I venture to say that those kind of promises should always be our priorities.

What is your resolution to this new year?


 

Un brindis a las resoluciones de Año Nuevo (ES)

Muchas personas dicen que las resoluciones de año nuevo son un engaño y que nadie las cumple. Para mí la entrada en el nuevo año ha sido varias veces el marco de grandes cambios.

A finales de 2014 decidí dejar de consumir productos de origen animal, 5 años antes ya había dejado de comer carne y, a principios de 2015, dejé primero el pescado y luego los huevos y los productos lácteos. En febrero de ese mismo año ya tenía una alimentación 100% vegetal ya lo largo de ese año me fui informando cada vez más para saber qué otros productos del día a día contenían ingredientes de origen animal o habían utilizado algún tipo de explotación animal (como los productos testados en animales) hasta que los dejé de consumir todos. La resolución de ese año fue una de las mejores decisiones que tomé en mi vida.

A finales del año 2017 decidí dejar de fumar, esta vez decidí que guardaría algunas excepciones para eventos realmente especiales en los que me apetezca disfrutar de uno o dos cigarrillos. Pero tenía que ser algo muy excepcional, si no me veía volver a fumar todos los fines de semana o cada vez que tenía una cena con amigos. Decidí que bodas de amigos, mi fiesta de aniversario y la cena de nochevieja serían las excepciones. En noviembre ya pasé el mes sin fumar. A principios de diciembre tuve una boda en la que decidí entonces abrir la excepción. Los cigarrillos que fume en ese día me supieron muy bien, pero al día siguiente tenía tos, y una sensación de mal gusto en la boca que no pasaba por más que cepillara los dientes y la lengua. Al final del mismo mes, en nochevieja, volví a fumar pero en realidad era como que, en cada cigarrillo que encendía, buscaba el placer que en tiempos sentí al fumar pero no lo encontraba. Esto hizo que fumase bastante esa noche, y la mañana siguiente tenía otra vez la garganta irritada y la boca áspera. La verdad es que aunque nunca había pensado en dejar definitivamente los cigarrillos, en 2018 no tuve ganas de abrir excepciones en ninguna de las oportunidades que tuve. Una vez más he realizado mi resolución de año nuevo, incluso por encima de mi objetivo inicial, y me siento muy agradecida por ello.

Este año decidí que en 2019 no voy a consumir bebidas alcohólicas. Hay varias razones por las que tomo esta decisión pero la principal es pura curiosidad. He leído sobre los efectos del alcohol en la destrucción de la microbiota, sé que dificulta el trabajo de las muchísimas funciones del hígado, sin hablar de las resacas al día siguiente o incluso de las ocasionales pérdidas de control que me hacen arrepentirme de haber bebido tanto. Tengo una enorme curiosidad de saber qué efectos tiene realmente el alcohol en mi organismo. Como ya consumo bebidas alcohólicas hace bastante tiempo y de forma más o menos regular (cada semana 2 a 10 copas), la única forma de percibir estos efectos es retirar el alcohol durante un largo período de tiempo y analizar los cambios.

Siento que socialmente va a ser un desafío. A diferencia del tabaco que ya es universalmente reconocido como algo malo para la salud, el alcohol (acompañado del café y del azúcar) es una de las drogas más bien vistas socialmente. Tengo la experiencia personal de ir contracorriente en algunas características de estilo de vida, y por eso he sentido en la piel cuán incómodas se sienten algunas personas cuando les dices que no haces las cosas como ellas creen que deberías hacerlas. Pero decidí que no voy a crear expectativas, ni intentaré predecir qué reacciones mi cambio va a provocar. En vez de eso, voy a observar y analizar lo que sucede y dentro de un año os cuento cómo ha ido la experiencia, tanto a nivel social, como a nivel personal. ¿Qué os parece?

Volviendo a la cuestión de las resoluciones: ¿Tu haces resoluciones de año nuevo? ¿Por qué crees que no puedes cumplir tus resoluciones de año nuevo? ¿O al revés, si las cumples, qué crees que hace que tengas éxito?

Por mi experiencia, creo que para lograr cumplir una resolución de año nuevo esta resolución tiene que:

  • Tener una razón fuerte por detrás – si no tienes razones fuertes para hacer algo lo más seguro es que acabes por desistir frente a las primeras dificultades;
  • Tener objetivos concretos – beber menos o ir más al gimnasio no es algo muy concreto, los límites definidos ayudan a mantener el enfoque en el objetivo, beber sólo un vaso por semana ya o ir al gimnasio todas las semanas ya son cosas bastante más concretas;
  • Ser algo realista – si no es algo realmente posible de realizar, o algo que dependa de muchos factores que no controlas entonces va a ser mucho más difícil que lo puedas cumplir.

Para mí la gran ventaja de las resoluciones del año nuevo son los desafíos. Al crear una resolución me estoy desafiando a cambiar cosas que considero importantes para vivir mejor, para ser más feliz, o simplemente para probar a mí misma que puedo. La sensación de llegar al final del año con otra resolución cumplida es muy gratificante. En realidad a lo largo del año hacemos promesas (personales y profesionales) a más o menos personas, pero las promesas que hacemos a nosotros mismos tienden a ser las que acabamos por no cumplir. La resolución de año nuevo no es más que una promesa o compromiso con nuestro yo futuro, y arriesgo decir que ese tipo de promesas debería tener siempre nuestra prioridad.

¿Cuál es tu resolución para este año nuevo?

My mixed feelings about Xmas

My mixed feelings about Xmas (EN)

Mis sentimientos encontrados con relación a Navidad (ES)

Os meus sentimentos contraditórios com relação ao Natal (PT)

O Natal está mesmo à porta. Esta celebração, de uma forma ou de outra, costuma estar carregada de emoções. Para umas pessoas é um momento melancólico porque as recorda de todas as pessoas que já não estão presentes na mesa da ceia; para outras é um stress, uma azáfama quer seja pela correria para comprar presentes ou pela preparação da comida; para outras pessoas é um momento esperado pois é a única altura do ano em que veem alguns membros da família que vivem longe; para outras ainda esta festa cria muita ansiedade pois vão ter que dividir a mesa com membros da família com os quais não se dão muito bem; para algumas pessoas é um momento mesmo especial pois podem ver a felicidade na cara dos mais novos ao abrir os presentes e quase como que relembrar o que elas próprias sentiam nesse momento.

O Natal pode significar um montão de coisas diferentes e os rituais de cada família também variam. Já te questionaste o que significa o Natal para ti? Que sentimentos traz à tona? E quais são mais positivos ou menos?

Para mim o Natal tem dois lados.

Um deles é o lado que me dá alegria e que tem a ver com o facto de que, durante 2 dias (24 e 25 de Dezembro), consigo estar algumas horas com todos os membros da minha família mais próxima. Sempre aguardei com entusiasmo as reuniões familiares e agora que vivo longe de toda a família ainda mais.

O outro é o lado que me traz muita tristeza. É saber que esta é a altura do ano em que o maior número de animais são mortos para que algumas pessoas satisfaçam a sua gula. Que se cozinha cabrito sem pensar que aquele ser era um bebé por desmamar, que se prepara o bacalhau sem pensar na morte dolorosa e angustiante que possibilitou a sua chegada à travessa, que se recheiam perus sem ter em conta que eles são animais sociais que criam verdadeiros laços uns com os outros.

Por um lado quero desfrutar destes momentos preciosos com a minha família, e celebrar a paz e o amor conforme pede a festividade. Por outro não consigo, nem quero, ignorar os cadáveres que encimam a mesa da ceia e do almoço de Natal.

Apesar de ainda viver num mundo onde a maioria das pessoas ignora o termo “especismo” e de a grande parte das pessoas que eu conheço não serem vegan@s, durante a maior parte do ano consigo ou esquivar-me bastante a situações nas que tenha que ver pessoas comerem pedaços de cadáveres. E quando não me consigo safar tento não pensar muito sobre o assunto. Mas no Natal encontro-me, suponho que como a maioria das pessoas, ainda mais empática o que faz com que viva de maneira mais intensa tanto a parte alegre, como a parte triste.

Para compensar esses sentimentos menos positivos que me traz o Natal tento recordar-me de duas coisas que me trazem alegria e esperança.

A primeira é o facto de não passar por tudo isto sozinha, tenho a sorte gigantesca de estar neste caminho da compaixão e do respeito pelos outros animais com a minha irmã Tico. Podemos segurar a mão uma da outra quando nos sentirmos mais assoberbadas pelas visões macabras da mesa natalícia. Às vezes basta só apenas um cruzar de olhares com a minha irmã para saber que ela está a pensar o mesmo que eu.

A segunda é o facto de saber que, a pouco e pouco, nós também estamos a fazer o nosso papel de sensibilizar um pouco a nossa família para aceitar (já nem digo adoptar) os nossos valores e, quem sabe até, simpatizar com eles. Até há bem pouco tempo provavelmente quase ninguém da nossa família próxima sabia o que era o hummus ou o seitan, nunca tinham experimentado queijos nem chouriços veganos, nunca tinham ponderado preparar um prato vegetal para as reuniões familiares. E todos os anos sinto que se torna cada vez mais fácil.

Este ano, para a ceia de Natal, até vamos preparar o nosso prato principal na casa onde se juntará a família, e dessa forma dar uma mini aula de culinária à base de vegetais. Temos preparada uma receita infalível, que vai deixar bem claro que para ter uma refeição equilibrada e cheia de sabor não fazem falta produtos de origem animal. E para a sobremesa estamos a pensar fazer uma versão vegana de uma das sobremesas que fazíamos sempre com a nossa mãe para esta altura. Tentaremos fazer algumas fotos e depois contaremos como foi 🙂 .

Também tens sentimentos contraditórios com relação ao Natal? O Natal leva-te a questionar algumas coisas? Como fazes para lidar com isso?


My mixed feelings about Xmas (EN)

Christmas is right around the corner. This celebration, in one way or another, is loaded with plenty of emotions. For some people it is a melancholic moment because it reminds them of all dear ones that are no longer present at supper; to others it’s a massive stress, a bustle due to the rush to buy presents or prepping food; to other people it’s a moment for which they are looking forward as it is the only time of the year when they get to see their family members that live abroad; other people feel anxious at this time of the year because they’ll have to share table with family members with whom they don’t get along; to some people it’s a very special moment because they get to see the happiness “stamped” on youngster’s faces while opening presents, recalling them on how they felt like back in the day.

Christmas has different meanings and every family have their own rituals. Have you ever questioned what does Christmas means to you? What feelings are brought up? And which are more positive or less positive?

To me Christmas has two sides.

One of them is the side that gives me joy and that has to do with the fact that during two days (December 24th and 25th) I’m able to spend some time and be with all my relatives. I’ve always looked forward enthusiastically for family gatherings and now even more so because I live far away from them.

The other side is the one that brings me a lot of sadness. Knowing that this is the time of the year on which the greatest number of animals are killed so that some of us can indulge with gluttony. That a little lamb is cooked without the conscience that that being was a baby yet to be weaned, that codfish is prepped without any awareness of how painful and distressed of a death that that being had to go through before getting to a platter, that turkeys are stuffed with herbs disregarding the fact that they are social animals that bond with each other.

On one hand I want to enjoy those precious moments with my family, celebrating the peace and love according to what this festivity aims for. On the other hand I cannot, nor do I want to, ignore the corpses that lie on supper’s table and Christmas lunch.

Despite living in a world where the majority of people disregard the word “speciesism” and the fact that most of the people that I know are not vegan, I can wriggle for most part of the year to many events on which I would have to see people eating pieces of death bodies. And when I cannot get away, I try to avoid thinking too much about it. But during Christmas I find myself, just like all the others (I reckon), even more empathetic which makes me live both joyful and sad parts in an intense way.

To make up for these less positive feelings that Christmas brings, I try to remind myself of two things that bring me hope and delight.

The first one is the fact that I don’t have to go through all of this by myself, as i have the enormous luck of being in this compassionate path with respect towards all animals together with my sister Tico. We can hold hands when we feel swamped by the gruesome imagery that stands before our eyes on top of the table. Sometimes it only takes an exchange of glances with my sister to know that she is thinking exactly the same as I am.

On the other hand is knowing that, little by little, our role that aims to sensitise our family to accept (it’s not realistic to say adopt) our values and who knows, even sympathise with them. Not long ago, probably many of our family members were not familiarised with foods such as hummus or seitan, nor have they tried vegan cheese or chorizo or even consider preparing a veggie dish to family meetings. And every year I notice that is getting easier.

This year, for Christmas supper, we will prepare our main meal at the location where Christmas will be celebrated and thus giving a mini cooking class where vegetables are on the spotlight. We have planned an infallible recipe, that will clarify that in order to have a balanced meal, full of flavour, no animal products are needed. And for dessert we will try to bake a vegan version of one of our favourite desserts that we always made with our mother in this time of the year. We will take some pictures and share the experience after all 🙂 .

Do you also have mixed feelings when it comes to Christmas? Does Christmas leads you to question anything?  How do you deal with it?


La Navidad a 5 días de distancia. Esta celebración, de una forma u otra, suele estar cargada de emociones. Para una gente es un momento melancólico porque las recuerda de todas las personas que ya no están presentes en la mesa de la cena; para otras es un estrés, un bullicio ya sea por la correría para comprar regalos o por la preparación de la comida; para otras personas es un momento muy esperado pues es la única altura del año en la que ven a algunos miembros de la familia que viven lejos; para otras aún esta fiesta les crea mucha ansiedad pues van a tener que compartir la mesa con miembros de la familia con los que no se llevan muy bien; para algunas personas es un momento bastante especial pues pueden ver la felicidad en la cara de los más jóvenes al abrir los regalos y casi como recordar lo que ellas mismas sentían en ese momento.

La Navidad puede significar un montón de cosas diferentes y los rituales de cada familia también varían. ¿Te has preguntado qué significa la Navidad para ti? ¿Qué sentimientos trae a la superficie? ¿Y cuáles son más positivos o menos?

Para mí la Navidad tiene dos lados.

Uno de ellos es el lado que me da alegría y que tiene que ver con el hecho de que durante 2 días (24 y 25 de diciembre) puedo estar unas horas con todos los miembros de mi familia más cercana. Siempre esperé con entusiasmo las reuniones familiares y ahora, que vivo lejos de toda la familia, aún más.

El otro es el lado que me trae mucha tristeza. Es saber que esta es la altura del año en que el mayor número de animales son muertos para que algunas personas satisfagan a su gula. Que se cocina el cabrito sin pensar que aquel ser era un bebé por desmamar, que se prepara el bacalao sin pensar en la muerte dolorosa y angustiante que posibilitó su llegada a la bandeja, que se rellenan pavos sin tener en cuenta que ellos son animales sociales que crean verdaderos lazos unos con otros.

Por un lado quiero disfrutar de estos momentos preciosos con mi familia, y celebrar la paz y el amor como pide la festividad. Por otro no puedo, ni quiero, ignorar los cadáveres repartidos por las mesas de la cena y de la comida de Navidad.

Aunque todavía vivo en un mundo donde la mayoría de la gente ignora el término “especismo” y que la gran parte de las personas que yo conozco no sean vegan@s, durante la mayor parte del año consigo esquivarme bastante a situaciones en las que tenga que ver a la gente comer trozos de cadáveres. Y cuando no me puedo ahorrar esas visiones intento no pensar mucho sobre el asunto. Pero en la Navidad me encuentro, supongo que como la mayoría de la gente, aún más empática, lo que hace que viva de manera más intensa tanto la parte alegre, como la parte triste.

Para compensar esos sentimientos menos positivos que me trae la Navidad intento recordarme de dos cosas que me traen alegría y esperanza.

La primera es el hecho de no pasar por todo esto sola, tengo la suerte gigantesca de estar en este camino de la compasión y del respeto por los otros animales con mi hermana Tico. Podemos dar las manos cuando nos sentimos más abrumadas por las visiones macabras de la mesa navideña. A veces sólo basta un cruzar de miradas con mi hermana para saber que ella está pensando lo mismo que yo.

La segunda es el hecho de que, poco a poco, nosotros también estamos haciendo nuestro papel de sensibilizar un poco a nuestra familia para aceptar (no sería realista decir adoptar) nuestros valores y, quizá incluso, simpatizar con ellos. Hasta hace poco tiempo probablemente casi nadie de nuestra familia cercana sabía lo que era el hummus o el seitán, nunca habían probado quesos ni chorizos veganos, nunca habían pensado preparar un plato vegetal para las reuniones familiares. Y cada año siento que se vuelve cada vez más fácil.

Este año, para la cena de Navidad, vamos a preparar nuestro plato principal en la casa donde se unirá la familia, y de esa forma daremos una mini clase de cocina a base de vegetales. Hemos preparado una receta infalible, que va a dejar bien claro que para tener una comida equilibrada y llena de sabor no hacen falta productos de origen animal. Y para el postre estamos pensando hacer una versión vegana de uno de los postres que hacíamos siempre con nuestra madre para esta altura. Intentaremos hacer algunas fotos y luego contaremos como fue :).

¿También tienes sentimientos contradictorios con respecto a la Navidad? La Navidad te lleva a cuestionar algunas cosas? ¿Cómo haces para lidiar con eso?

Give a kiss to grandma!

Give a kiss to grandma! (EN)

Dale un besito a la abuela! (ES)

Dá um beijinho à avó! (PT)

Desde Outubro que quero escrever este artigo. Venho falar sobre algo que levantou alguma polémica em meados desse mês. Na altura estávamos a preparar o lançamento do blog, e por um lado não quis começar logo “a matar” com um tema tão controverso, por outro não queria escrever de cabeça quente nem que este texto fosse lido sob esse efeito de reação automática. Agora que a poeira já assentou sobre este tema, tenho o gosto de me questionar e vos pôr a questionar também.

Para quem não esteve a par da tal polémica passo a explicar o que aconteceu. No dia 16 de Outubro num programa de debate da RTP (canal público de televisão portuguesa), chamado Prós e Contras, discutiu-se o movimento #MeToo e as suas consequências a nível social em Portugal e no mundo. Durante o debate um professor universitário disse uma frase que chocou muita gente. A frase dita por Daniel Cardoso (o professor) foi: “A educação é quando a avózinha ou o avôzinho vai lá a casa e a criança é obrigada a dar o beijinho à avózinha ou ao avôzinho. Isto é educação, estamos a educar para a violência sobre o corpo do outro e da outra desde crianças. Obrigar alguém a ter um gesto físico de intimidade com outra pessoa como obrigação coerciva é uma pequena pedagogia que depois cresce.”.

Eu não vejo televisão, mas através do facebook apercebi-me deste fenómeno. E foi lá que vi levantar-se uma onda de verdadeiro ódio para com uma pessoa que não tinha feito mais do que dar a sua opinião. Os insultos iam de parvo para cima (ou a expressão correcta seria para baixo, já que o nível também baixava?) e além de discordarem, em letras maiúsculas e com muitos pontos de exclamação, da ideia de que não se devem obrigar as crianças a beijar os avós (porque essas pessoas, que insultavam, tinham também elas sido obrigadas a dar beijos aos avós e continuavam de “boa saúde”; ou porque obrigavam os filhos a fazê-lo e queriam reafirmar que estavam a fazer o correcto), a maioria aproveitou para meter ao barulho a aparência física do Daniel, as suas relações pessoais e os seus gostos sexuais (todos considerados bastante fora do normal dentro dos parâmetros da nossa sociedade).

Eu até percebo a reação emocional das pessoas que procederam assim. Afinal toca-nos profundamente o ego quando alguém vem dizer que, uma das coisas que aceitamos como normais e por isso correctas (temos tendência para erroneamente correlacionar uma coisa com a outra), é afinal uma prática nociva. E como a maioria das pessoas não quer ir realmente ao fundo da questão, questionando-se verdadeiramente sobre o tema, é mais fácil serem infantis e atirar como argumentos coisas que não têm nada a ver com o que foi declarado pelo Daniel, como o facto de ele ter o cabelo comprido e uma aparência pouco masculina (a sério, mas que raio é que isso interessa para a conversa dos beijos aos avós?).  

Vamos então começar o exercício de pensar realmente sobre o assunto. Quais são os prós e contras de obrigar uma criança a dar um beijinho aos avós, ou a qualquer outra pessoa – seja a mãe, a tia afastada ou o amiguinho da escola?

Pró: A criança aprende que se deve cumprimentar as pessoas, mesmo quando não apetece, e que cumprimentar tem que ser através de contacto físico e alguma intimidade, como a que requer o beijo na cara. Contra: Acima está uma lição sem pés nem cabeça, primeiro porque mesmo nós (os adultos) às vezes ,por alguma razão, não cumprimentamos pessoas que conhecemos, depois porque existem mais formas de cumprimentar sem ter que beijar ou mesmo sem entrar em contacto físico.

Pró: A criança aprende que deve fazer o que se lhe manda e o que se lhe manda fazer é o correcto, porque os mais velhos é que sabem. Contra: Mas às vezes os mais velhos não sabem tudo, não sabem o que se passa dentro da cabeça da criança, nem compreendem as razões que ela possa ter para não querer beijar alguém, e essas razões devem ser consideradas tão boas como as que possas ter tu ou eu como adult@ para não querer beijar alguém (imagina que te obrigavam!). E sobretudo não me parece assim tão benéfico que uma criança aprenda que o que os mais velhos dizem, está à partida correcto, sem questionar. Isso é o que produz pessoas que não pensam pelas próprias cabeças, e não queremos educar pessoas dessas, certo?

Pró: Ensinamos à criança a ter respeito pelos mais velhos. Contra: Coagir alguém a fazer algo não ensina respeito, ensina obediência cega.  

Pró: A avó fica contente de ter ganho um beijo d@ net@. Contra: Se explicarmos à avó (ou a quem seja) porque é que não obrigamos a dar beijos talvez ela até perceba. E mais, se a avó eventualmente deixar de pedir beijos à criança esta, por iniciativa própria, pode vir a dar-lhe mais carinho quando realmente lhe apetecer, e isso certamente fará a avó mais feliz que um beijo de raspão por obrigação.  

Desafio quem não está de acordo a dizer-me então afinal o que é que se ganha obrigando as crianças a dar beijos às pessoas.

Eu não me lembro de que alguma vez me tivessem que obrigar a dar beijos aos meus avós, acho que sempre o fiz de livre vontade. Mas lembro-me bem de me fazerem dar beijos a outras pessoas, lembro-me principalmente de ir de mão dada com a minha avó no bairro onde ela vivia, e que sempre que encontrava uma amiga me pedia para eu as cumprimentar com um beijinho. Lembro-me que eram velhotas estranhas para mim, com cheiros esquisitos e com bigodes que pareciam picar ou lábios que pareciam deixar baba pelo caminho. Era normal que eu não tivesse nenhum interesse em beijá-las, e na verdade também não vejo o que nenhuma das partes ganhava com todo aquele “teatro” (nem eu, nem a minha avó, nem as amigas dela).

Eis que agora podem vir os defensores do “não vem nenhum mal ao mundo por fazer as crianças dar beijos a quem quer que seja “ porque, ao que parece, eu própria fui obrigada e não tive nenhum problema por causa disso. E eu digo: Nisso é que vocês se enganam!

O que vou partilhar a seguir sabem-no muito poucas pessoas. É um assunto que durante muito tempo da minha vida me provocou vergonha, e muita revolta. Quanto à vergonha, hoje em dia sei que não sou eu quem a deve sentir, e quanto à revolta não está completamente ultrapassada, e talvez nunca esteja.

Quando era pequena, um senhor que tinha idade para ser meu avô insistia em tocar-me de maneira pouco normal – isso era como eu via a coisa naqueles tempos. Hoje sei que ele me apalpava em zonas do corpo onde quem o faz é descrito como pedófilo. Na altura só me parecia estranho, ele fingia que me fazia cócegas para me pôr a mão no rabo e entre as pernas. Ou pedia que me sentasse no colo dele para ‘fazer o cavalinho’ quando na verdade o que fazia era esfregar-se em mim de uma maneira que hoje (não naquela altura) reconheço como sexual. Eu via este senhor várias vezes por semana, porque ele trabalhava para o meu pai e, apesar de na altura eu não ter discernimento para juntar dois mais dois (literalmente), só me fazia aquilo quando não havia mais adultos por perto. Eu fui ensinada que os mais velhos faziam o correcto, que devia aceitar as demonstrações de carinho dos mais velhos sem me queixar, e que tinha que respeitar as pessoas mais velhas. Isso fez-me aguentar estas práticas esquisitas, que me deixavam muito desconfortável, sem falar do assunto a nenhum outro adulto porque achava que não havia nada para contar.

Até que um dia este senhor nos chamou à minha irmã e mim para dentro de uma pequena sala de arquivo e fechou-nos lá dentro. Disse-me para eu ficar quieta de cara virada para a porta e, com os joelhos dobrados, pois eu ainda era bastante mais baixa que ele, começou a esfregar-se no meu rabo, com um movimento de pernas e ancas. Aquilo finalmente fez-me desconfiar que algo não batia certo. Apesar de ser tão pequena aquele episódio provocou-me muita vergonha. Lembro-me de dizer à minha mãe chorando que não queria que o meu pai me levasse mais para o trabalho dele. A minha mãe achou estranho porque eu até gostava de ir para lá, porque me entretinha com máquinas de escrever, calculadoras e outros tesouros tecnológicos aos quais não tinha acesso noutro sítio. E a muito custo e depois de muitas lágrimas, porque eu tinha vergonha de pôr aquele acto em palavras, lá contei à minha mãe o que tinha sucedido e também contei sobre os apalpões e outras coisas que achava esquisitas. A minha irmã confirmou a minha história. Eu tinha tanta vergonha que pedi à minha mãe que me prometesse que não diria ao meu pai que lhe tínhamos contado tudo isto. Tinha tanta vergonha que não podia sequer suportar ter que falar com o meu pai directamente sobre o acontecido se ele me perguntasse. A minha mãe falou com o meu pai e disse-lhe tinha ouvido uma conversa minha e da minha irmã sobre aquilo. A minha irmã e eu nunca mais fomos deixadas a sós com aquele senhor, mas ele continuou lá por muitos mais anos.

Voltando à minha revolta. Não, eu não vou dizer quem foi o pedófilo que me molestou quando eu era criança, nem sei se aquele homem ainda está vivo, e de qualquer forma não tenho nenhuma prova para além das minhas memórias. Não estou revoltada para com a minha mãe, que não tomou medidas mais assertivas (as que eu acho que tomaria se estivesse no lugar dela hoje), nem com o meu pai por não ter tentado perceber realmente o que tinha passado e por ter deixado que aquele homem continuasse a trabalhar para ele. Muito menos a minha revolta é para com a minha avó que me obrigava a dar beijos a outras pessoas mais velhas.

Sei que se tivesse sido educada para saber que a intimidade necessita consentimento e que não está certo que uma pessoa mais velha, só por o ser, possa exigir um certo nível de intimidade física comigo, em vez de aprender que é preciso dar beijinhos aos mais velhos quando estes pedem ou outro adulto o comanda… se tivesse sido educada para me respeitar, e lutar para que me respeitassem, em vez de ter de respeitar os mais velhos, só por questão de idade… se tivesse sido educada para pôr o meu desejo e o meu conforto diante de qualquer que seja a satisfação (não percebo realmente) que alguém obtém por conseguir ganhar um beijo de uma criança contrariada …se tudo isto tivesse acontecido assim e não assado talvez eu nem tivesse dado a primeira oportunidade a este homem para me molestar e talvez nunca tivesse que passar por tudo isto. Ainda hoje penso que se eu não me tivesse assustado tanto com aquele último episódio, um bastante mais traumático podia ter-se seguido.

Mas eu também não me sinto revoltada pela minha educação não ter sido diferente. O que realmente me revolta é que nos dias de hoje, com toda a informação que temos, e com pessoas finalmente dispostas a falar abertamente destes assuntos, ainda haja gente quem se recusa a questionar práticas “normais” só porque elas se fizeram assim a vida toda. O que me revolta é que tanta gente que eu considero inteligente, sem pensar cinco minutos sobre o assunto, teve a necessidade de repudiar uma opinião que sei que é bem válida.

Quando alguém tenta forçar crianças a cumprimentarem-me com um beijo eu sou a primeira a dizer que não quero. E quando (se alguma vez) tiver filh@s não @s vou obrigar a dar beijos aos avós, nem às tias, e nem a mim mesma. Se alguém achar que as minhas “crias” são mal-educadas por não beijarem à demanda, problema deles, eu não acho que o objectivo deva ser criar paus mandados, mas sim educar seres pensantes.


Give a kiss to grandma! (EN)

Today, I’m writing about something that generated some controversy in Portugal, last mid-October and since then I was willing to write this article. At that time, we were preparing to launch this blog and for that reason I didn’t want to start with such a controversial topic.

As the english readers might not be familiar with this polemic subject, I will first explain what happened. On the 16th of October, there was a debate on RTP channel (public Portuguese channel) called “Pros & Cons”, where the movement #MeToo and its consequences in Portugal and abroad, were discussed on a social level. During the debate, a university Professor called Daniel Cardoso, said something that shocked many people. The phrase was: “Education is resumed to when grandma or grandpa come to visit and the child is obligated to give a kiss to grandma or grandpa. This is the education, we are educating on violence regarding one’s body since early age. Forcing someone to have a physical and intimate gesture with such coercive obligation with another person is considered a small pedagogy that later on will grow.”.

To those who don’t know Portuguese culture, we kiss people on both cheeks to greet them and we are taught to do so since a very early age.

I don’t watch TV, but this phenomenon reached me through Facebook. There, I saw a surge of deep hatred arising towards someone that had not done anything but express his opinion. The insults were beyond foolish and besides disagreeing, with capital letters and many exclamation marks, with the idea that kids should not be forced to kiss their grandparents (because those insulting were too obligated to kiss their grandparents and remained “all right”; or because they obligate their own children to do the same and wanted to reaffirm that this was the right thing to do), the majority took advantage of the situation to comment on Daniel’s physical appearance, his personal relationships and sexual orientation (all considered abnormal among our society standards).

I even understand people’s emotional reaction when reacting in this way. After all, our ego gets profoundly touched when someone tells us that, something we accept as normal and thus correct (we have a tendency to correlate erroneously both things), is in the end of the day detrimental. As most people are not willing to dig deep to the bottom of the issue, truly questioning about the subject, it is easier to be childish and throw a bunch of arguments that nothing have to do with what Daniel said in the first place, such as commenting on his long hair and his lack of masculine appearance (really? how the hell is this related to the topic about kissing the grandparents?).

Let’s get to an exercise to really start thinking about this issue. What are the pros and cons of forcing a child to kiss their grandparents, or whoever it is – whether is the mother, the estranged aunt or a friend in school?

Pro: The child learns that they should greet people, even when they don’t feel like it, and that greeting has to be with physical contact and some intimacy, such as a cheek kiss requires. Con: Above is a non sense lesson because even adults sometimes don’t greet acquaintances for some reason and also because there are more ways of greeting others with no need for kisses or any physical contact.

Pro: The child learns that they should do what they are taught to do and that what they are taught is correct, because older people know better. Con: Except that older people don’t always know better, they don’t know what lies inside a child’s head, nor understand the reasons behind a child not wanting to kiss someone, and those reasons should be considered as good as the reasons you or I have as adults to not want to kiss someone (picture that you were obligated to!). And above all, it doesn’t seem beneficial to me if a child learns that what older people say is, from the outset, correct without questioning it. That’s exactly what generates people that cannot think for themselves and we do not want educate such people, do we?

Pro: We teach the child to have respect for older people. Con: Compel someone to do something does not teach respect, it teaches blind obedience.

Pro: The grandma is happy because she got a kiss from her grandchild. Con: If we explain to the grandma (or any other person) why we don’t force the child to kiss her, perhaps she can understand. More, eventually if the grandma stops requesting kisses from the child, they can end up giving her more affection from their own initiative, when they feel like doing it, and that will certainly make the grandma happier that gaining a forced glancing kiss.

I challenge those who don’t agree, to tell me what do we gain by forcing children to give kisses to people.

I do not recall ever being forced to give a kiss to my grandparents, I guess I did it with free will. However, I do remember being asked to kiss other people. Mostly older ladies, as I joined my grandma for a walk at her neighbourhood and every time we met one of her friends, she would kindly ask me to greet them with a kiss. I recall that I considered them as outsiders, with weird smells and facial hair that seemed to prick or lips that would drool all over my face. It seems reasonable to me that I wasn’t keen to kiss them and in truth I can’t see what any of us would gain with this “theatrical performance” (my grandma, her friends or myself).

And here can come the advocates of “I don’t see what harm can be done by obligating kids to kiss whoever it is” because, just as I said, I was too obligated and didn’t have any problem because of that. And my answer is: You have no idea!

What I’m about to share here, not many people know. It’s a subject that created shame for quite a long time in my life, and lots of outrage too. With respect to the shame, I know nowadays that it isn’t me who should feel it, and regarding the outrage it is not completely surpassed, and perhaps will never be.

When I was a child, a man that was as old as my grandfather, insisted in touching me in a rather strange way – that’s how I saw things back then. Today I know that he would touch my body in such areas where those who do are called pedophiles. At the time, it seemed odd to me, he would pretend to tickle me just to touch my butt or between my legs. He would also ask me to sit on his lap to “play horsey” when in fact what he just wanted was to rub himself on me in a way that today (not back then) I acknowledge as sexual. I encountered this man several times a week as he was my dad’s employee and, despite my lack of discernment to put two and two together (literally), he would only do those things when there were no other adults around. I was taught that older people did the right thing, that I should accept affection demonstrations for them without complaining, and to respect them. That made me put up with those weird acts, that would would make me feel very uncomfortable, without even mentioning it to any adult because I thought there was nothing to tell.

Until one day, this man took my sister and I to a small archive room and locked us inside with him. He told me to be quiet and facing the door, he bent his knees (because I was way shorter than him) and started to rub his parts in my butt, moving legs and hips. I realised then that something here wasn’t right. Despite being just a child that happening caused me a lot of shame. I recall telling my mother, with tears rolling down my face, that I no longer wanted my father to bring me to his workplace. My mother found this to be strange because going to my dad’s office was something that I enjoyed as I would get amused by the typewriter, calculators and other tech treasures to which I didn’t have access in any other place. Somehow, many tears later as I had so much shame to put that episode in words, I finally explained to my mom what had happen, together with the other odd stuff that he had done before. My sister confirmed my story. Again, my shame was such that I asked my mother to promise not to tell my father what she had just learned from us. This shame prevented me from even thinking about talking about this issue directly with my dad, if I was eventually queried by him. My mother then talked to my father and said that she had heard my sister and I chat about it. Both my sister and I were never again let alone with this man, however he ended up still working there for many more years.

Back to my outrage. No, I won’t say who is the pedophile that molested me when I was a young girl, I don’t even know if he is still alive, and besides my memories no other proof remained. I’m not outraged at my mother, that didn’t take the best measures (those measures that I would take today if I was in her position), nor at my father for not trying to understand what was really happening and to keep that man as an employee. My revolt is even less towards my grandma that obligated me to kiss other elderly people.

I know that if I was brought up to understand that intimacy requires consent and that it is not ok when an older person claims a certain intimacy level with me, instead of learning that it’s necessary to give kisses to older people by their or other adults request… if I was to be raised to respect myself and strive to be respected by others, instead of having to respect older people only because of their age… if I was brought up to place my desire and comfort above other people’s satisfaction for getting a kiss from a countered child…if only all of this had happened in this way and no other, maybe I would have never given this man the first chance to molest me and perhaps would never been through all of this. To this day I think that, had I never been so scared with that last event, a much more traumatising one could have succeeded.

I can’t say that I feel revolt due to the way I was brought up. What is outraging to me is that nowadays, with all the information we have available, and with people open to talk about these topics, is that still to this day there are people who refuse to question “normal” practices just because that’s how they have been done so far. What is outraging to me is that so many people that I consider as intelligent, without even taking five minutes to think about the subject, had the need to repudiate a valid opinion.

When someone tries to force a child to greet me with a kiss, I’m the first to say that I don’t want it. And when (if anytime) I’ll have my own children, they won’t be obligated to kiss their grandparents, nor aunts, nor even myself. If anyone will think that my kids are ill-mannered just because they don’t greet with a kiss, I can’t even bother. I don’t think that the goal is to raise “rubber stamps” but rather individuals that can think.


¡Dale un besito a la abuela! (ES)

Desde octubre que quiero escribir este artículo. Vengo a hablar sobre algo que ha levantado alguna polémica en Portugal a mediados de ese mes. En ese momento estábamos preparando el lanzamiento del blog, y no quise empezar tan pronto con un tema tan controvertido.

Es normal que l@s lector@s hispanohablantes no estuvisteis al tanto de esa polémica por lo que paso a explicar lo que sucedió. El 16 de octubre en un programa de debate en RTP (canal de la televisión pública portuguesa) llamado “Prós e Contras” (Pros y Contras), se discutió el movimiento #MeToo y sus repercusiones sociales en Portugal y en el mundo. Durante el debate un profesor universitario dijo una frase que chocó a mucha gente. La frase dicha por Daniel Cardoso (el profesor) fue: “Educación es cuando la abuelita o el abuelito van a la casa y se obliga al crío a dar un besito a la abuelita o al abuelito.  Esto es educación, estamos educando para la violencia sobre el cuerpo del otro y de la otra desde niñ@s. Obligar alguien a tener un gesto físico de intimidad con otra persona como obligación coercitiva es una pequeña pedagogía que después crece”.

Yo no veo la tele, pero a través de facebook me dí cuenta de este fenómeno. Y fue allí donde vi levantarse una ola de verdadero odio hacia una persona que no había hecho más que dar su opinión. Los insultos iban de tonto p’arriba (o quizás la expresión correcta sería p’abajo, ya que el nivel también bajaba) e además de discrepar, en letras mayúsculas y con muchos puntos de exclamación, de la idea de que no se deben obligar a los niños a besar a los abuelos (porque esas personas, que insultaban, también habían sido obligadas a dar besos a los abuelos y continuaban de “buena salud”, o porque obligaban a sus hijos a hacerlo y querían reafirmar que estaban haciendo lo correcto) la mayoría aprovechó para incluir en la discusión la apariencia física de Daniel, sus relaciones personales y sus gustos sexuales (todos considerados bastante fuera de lo normal dentro de los parámetros de nuestra sociedad).

Yo hasta entiendo la reacción emocional de las personas que procedieron así. Al final nos toca profundamente el ego cuando alguien viene a decir que una de las cosas que aceptamos como normales y por eso correctas (tenemos la tendencia para erróneamente correlacionar una cosa con la otra), es una práctica nociva. Y como la mayoría de la gente no quiere ir realmente al fondo de la cuestión, preguntándose verdaderamente sobre el tema, es más fácil ser infantil y disparar como argumentos cosas que no tienen nada que ver con lo que fue declarado por Daniel, como el hecho de él llevar el pelo largo y tener una apariencia poco masculina (¡en serio!,¿ pero qué diablos interesa eso para la conversación de los besos a los abuelos?).

Empecemos el ejercicio de pensar realmente sobre el tema. ¿Cuáles son los pros y contras de obligar a un niño a dar un beso a los abuelos, o a cualquier otra persona – ya sea la madre, la tía alejada o el amiguito de la escuela?

Pro: La niña o el niño aprende que se debe saludar a las personas, incluso cuando no apetece, y que saludar tiene que ser a través de contacto físico y alguna intimidad, como la que requiere el beso en la cara. Contra: Arriba está una lección sin pies ni cabeza, primero porque incluso los adultos a veces no saludamos a las personas que conocemos por alguna razón, después porque hay más formas de saludar a las personas sin tener que besar o incluso sin entrar en contacto físico.

Pro: La niña o el niño aprende que debe hacer lo que se le manda y que lo que se le manda hacer es lo correcto, porque los mayores son los que saben. Contra: Pero a veces los mayores no saben todo, no saben lo que pasa dentro de la cabeza del@ niñ@, ni comprenden las razones que él/ella pueda tener para no querer besar a alguien, y esas razones deben ser consideradas tan buenas como las que podamos tener tu y yo como adult@s para no querer besar a alguien (¡imagina que te obligan!). Y sobre todo no me parece tan beneficioso que un@ niñ@ aprenda que lo que los mayores dicen está desde un principio correcto, sin cuestionar. Eso es lo que produce personas que no piensan por las propias cabezas, y no queremos educar a personas así, ¿verdad?

Pro: Enseñamos al@ niñ@ como tener respeto por los mayores. Contra: Coaccionar a alguien a hacer algo no enseña respeto, enseña obediencia ciega.

Pro: La abuela se queda contenta de haber ganado un beso del nieto o de la nieta. Contra: Si le explicamos a la abuela (o a quien sea) porque no obligamos a dar besos quizás ella lo entienda. Y más, si la abuela eventualmente deja de pedir besos al@ niñ@ est@, por iniciativa propia, puede venir a darle más cariño cuando realmente le apetezca, y eso ciertamente hará la abuela más feliz que un beso de raspón por obligación.

Desafío a quien no está de acuerdo que me diga entonces lo que se gana obligando a l@s niñ@s a dar besos a las personas.

Yo no recuerdo que alguna vez me tuvieran que obligar a dar besos a mis abuel@s, creo que siempre lo hice de libre voluntad. Pero recuerdo bien de sí que me hacían dar besos a otras personas, recuerdo principalmente cuando iba con mi abuela por el barrio donde ella vivía, y como siempre que encontraba una amiga me pedía que yo las saludara con un besito. Recuerdo que eran viejitas extrañas para mí, con olores extraños y con bigotes que parecían picar o labios que parecían dejar babas por el camino. Era normal que yo no tuviera ningún interés en besarlas, y en realidad tampoco veo lo que ninguna de las partes ganaba con todo aquel teatro (ni yo, ni mi abuela, ni sus amigas).

Y ahora pueden venir los defensores del “no viene ningún mal al mundo por hacer los niños dar besos a cualquiera que sea” porque, al parecer, yo misma fui obligada y no tuve ningún problema a causa de eso. Y yo digo: ¡Es en eso que ustedes se equivocan!

Lo que voy a compartir a continuación lo saben muy pocas personas. Es un tema que durante mucho tiempo de mi vida me provocó vergüenza, y mucho enojo. En cuanto a la vergüenza hoy en día sé que no soy yo quien la deba sentir, y en cuanto al enojo no está completamente superado, y quizás nunca lo esté.

Cuando era pequeña, un señor que tenía edad para ser mi abuelo insistía en tocarme de manera poco normal – eso era como yo veía la cosa en aquellos tiempos. Hoy sé que él me palpaba en zonas del cuerpo donde quien lo hace es descrito como pedófilo. En la época sólo me parecía extraño, él fingía que me hacía cosquillas para ponerme la mano en el cilo y entre las piernas. O me pedía que me sentara en sus piernas para ‘hacer el caballito’ cuando en realidad lo que hacía era frotarse en mí de una manera que hoy (no en aquella época) reconozco como sexual. Yo veía a este señor varias veces por semana, porque él trabajaba para mi padre y, a pesar de que no tenía discernimiento para juntar dos más dos (literalmente), sólo me hacía aquello cuando no había más adultos cerca. Me enseñaron que los mayores hacían lo correcto, que debía aceptar las demostraciones de cariño de los mayores sin quejarme, y que tenía que respetar a las personas mayores. Eso me hizo aguantar estas prácticas extrañas, que me dejaba muy incómoda, sin hablar del tema a ningún otro adulto porque creía que no había nada que contar.

Hasta que un día este señor nos llamó a mi hermana y a mi, nos llevó para dentro de una pequeña sala de archivo y nos cerró dentro. Me dijo que me quedara quieta de cara hacia la puerta y, con las rodillas dobladas, pues yo todavía era bastante más baja que él, empezó a frotarse en mi culo, con un movimiento de piernas y caderas. Eso finalmente me hizo desconfiar que algo no estaba bien. A pesar de ser tan pequeña ese episodio me provocó mucha vergüenza. Me acuerdo de decir a mi madre llorando que no quería que mi padre me llevara más a su trabajo. A mi madre le pareció extraño porque de normal me gustaba ir allí, porque me entretenía con máquinas de escribir, calculadoras y otros tesoros tecnológicos a los que no tenía acceso en otro sitio. A mucho costo y después de muchas lágrimas, porque yo tenía vergüenza de poner aquel acto en palabras, le conté a mi madre lo que había sucedido y también conté sobre las otras cosas que me hacía y me parecían raras. Mi hermana confirmó mi historia. Yo tenía tanta vergüenza, que le pedí a mi madre que me prometiera que no diría a mi padre que le habíamos contado todo esto. Tenía tanta vergüenza que no podía soportar tener que hablar con mi padre sobre ello si él me lo preguntara directamente. Mi madre habló con mi padre y le dijo que había escuchado una conversación entre mi hermana y yo sobre aquello. Jamás nos volvieron a dejar a solas con aquel señor, pero él continuó allí por muchos más años.

Volviendo a mi enojo. No, no voy a decir quién fue el pedófilo que me molestó cuando yo era niña, ni sé si aquel hombre todavía está vivo, y de todos modos no tengo ninguna prueba más allá de mis memorias. No estoy enojada con mi madre por no haber tomado medidas más asertivas (las que creo que tomaría si estuviera en su lugar hoy), ni con mi padre por no haber intentado percibir realmente lo que había pasado y por haber dejado que aquel hombre continuara trabajando para él. Mucho menos estoy enojada con my abuela que me obligaba a dar besos a otras personas mayores.

Sé que si hubiera sido educada para saber que las intimidades necesitan consentimiento y que no está bien que una persona mayor, sólo por serlo, pueda exigir un cierto nivel de intimidad física conmigo, en vez de aprender que hay que dar besos a los mayores cuando estos me lo piden u otro adulto lo demanda … si hubiera sido educada para respetarme, y luchar para que me respetaran, en vez de tener que respetar a los mayores, sólo por cuestión de edad … si hubiera sido educada para poner a mis deseos y mi comodidad delante de cualquiera que sea la satisfacción (no percibo realmente) que alguien obtiene por conseguir ganar un beso de un@ niñ@ contrariado … si todo esto hubiera ocurrido así y no de la manera que ocurrió, quizás ni siquiera le hubiera dado la primera oportunidad a este hombre para molestarme y quizás nunca tuviera que pasar por todo esto. Hoy todavía pienso que si no me hubiera asustado tanto con aquel último episodio, uno bastante más traumático podía haberse seguido.

Pero yo tampoco me siento enojada por mi educación no haber sido diferente. Lo que realmente me enoja es que en los días de hoy, con toda la información que tenemos, y con personas finalmente dispuestas a hablar abiertamente de estos temas, todavía hay gente que se niega a cuestionar prácticas ‘normales’ sólo porque las cosas se hicieron así toda la vida. Lo que me enoja es que tanta gente que considero inteligente, sin pensar cinco minutos sobre el tema, tuvo la necesidad de repudiar una opinión que sé que es muy válida.

Cuando alguien intenta forzar a l@s niñ@s a saludarme con un beso, soy la primera en decir que no quiero. Y cuando (si alguna vez) tengo hij@s no voy a obligarl@s a dar besos a los abuelos, ni a las tías, ni a mí misma. Si alguien cree que mis crí@s son maleducad@s por no besar a demanda, problema suyo, no creo que el objetivo deba ser criar títeres, sino educar a seres pensantes.

What do queuing and fake news have in common?

What do queuing and fake news have in common? (EN)

¿Qué tienen en común hacer cola y las noticias falsas? (ES)

O que têm em comum uma fila e uma notícia falsa? (PT)

Talvez alguns de vós não saibam que a Tico tem uma certa “alergia” a filas. Mas não é pela fila em si, no sentido em que há que fazer fila e esperar, é porque muitas vezes as filas são filas (e das grandes) porque as pessoas se metem nelas só porque veem que há lá mais pessoas, e que por isso acham que deve ser onde elas também devem estar. Lembro-me de estarmos na Expo98 e de ouvir a minha irmã dizer: “As pessoas são mesmo ovelhas”, ela tinha apenas 10 anos. Eu nessa altura achava que ela estava a exagerar.

Hoje em dia acho que não é correcto ofender as ovelhas… Há umas semanas estivemos as duas numa espécie de congresso. À parte do evento em si estar bastante mal organizado (talvez algum dia escrevamos sobre esse evento), quando chegámos vimos que havia uma fila gigante. Mas a Tico é perita nisto das filas e foi logo averiguar o que se passava. O que se passava era que a maioria das pessoas não tinha percebido que havia 4 filas diferentes lá mais à frente, perto da entrada, e que as pessoas se deviam distribuir, segundo o seu tipo de passe, por cada uma das filas. A maioria das pessoas não se preocupava em ir averiguar (lá mais à frente) porque é que havia uma fila tão grande, elas apenas entravam na fila maior, que era a que acabava mais atrás, e nem se apercebiam que havia outras filas (filas essas que provavelmente eram as que correspondiam aos seus passes de entrada no evento). Este fenómeno acontece onde quer que haja muita gente, e não só em forma de filas.

Na verdade este artigo nem é sobre filas, é sobre a facilidade que as pessoas têm em “ir atrás” ou “seguir o rebanho” de maneira praticamente cega. Porque as pessoas não se questionam! Isto é algo que vejo acontecer prácticamente todos os dias nas redes sociais. Hoje (escrevo este artigo no dia 2 de Dezembro), por exemplo, deparei-me com uma partilha no facebook cujo texto começava com a frase: “O PAN apresentou uma proposta para proibir que os pobres e os sem abrigo pudessem ter animais” e acabava com “Quem não gosta de pessoas não pode gostar de animais!” logo a seguir tinha um link.

Eu, como a maioria das pessoas, tive uma reação imediata, que foi pensar “Que estupidez!!”, e  depois pensei “Como assim o PAN apresentou uma proposta para proibir que os pobres e os sem abrigo pudessem ter animais?”. Só que depois eu fiz algo que muitas das pessoas que partilharam ou comentaram essa publicação não fizerem: cliquei no link!! O link abria um documento com o título “Proposta de Regulamento Municipal do Animal Município de Lisboa”. Um documento que eu me dei ao trabalho de ler, ao contrário das pessoas que se apressaram em partilhar ou comentar demonstrando a sua revolta para com o partido animalista. Nesse documento, onde por acaso o nome do PAN nem aparece em lado nenhum, figuram uma série de propostas de protecção e bem estar animal bastante dentro do que a maioria das pessoas consideraria dentro do bom senso (ora cliquem no link e leiam com os vossos próprios olhos). Em nenhum lado havia algo que dizia que queriam proibir os pobres de ter animais, nem muito menos da leitura daquele documento, que podia nem ser da autoria do PAN, podemos retirar a ideia de que o partido animalista “não gosta de pessoas”.

A publicação em causa tinha sido feita no dia 20 de Novembro e tinha (no momento em que eu escrevia este artigo) 859 comentários, 2715 partilhas e mais de 1860 gostos. E tinha sido feita por um senhor que nitidamente sabe que a maioria das pessoas não se preocuparia em clicar no link e ler o documento. Um senhor que sem dúvida quer denegrir a imagem do PAN, e que de certa forma o conseguiu, de maneira tão simples como escrever umas frases polémicas e colocar um link que figura como fonte daquilo que declara, mas que na realidade sabia que (quase) ninguém ia abrir.

A mesma suposta notícia (com base no tal documento) poderia ter sido: “O PAN apresentou uma proposta que defende que, para ter animais, se devem ter certas condições mínimas para garantir o seu bem estar”. A linguagem é muito importante, como já escrevi num artigo anterior, e a maneira como dizemos as coisas é um exemplo disso, pois uma maneira ou outra podem alterar completamente a resposta que as pessoas têm a uma mesma ideia. O senhor que fez a tal publicação também sabia isso demasiado bem.

Tanto nas filas como nas redes sociais, para nosso próprio bem e para garantir que estamos realmente informad@s, para que não sejamos apenas mais um@ a seguir cegamente o rebanho, devemos sempre verificar o que de facto se passa. Pessoalmente considero que estar bem informad@ não é um privilégio mas sim um dever de cidadania. E perpetuar publicações falsas e tendenciosas é nocivo para tod@s e de facto muito vergonhoso para quem o faz.


What do queuing and fake news have in common? (EN)

Maybe some of you might not know that Tico has a certain “allergy” to queuing. But it is not for the queue itself, in the sense that it is necessary to queue and wait, it is because queues are often formed into queues (and big ones) as people get in them just because and they see that there are more people there waiting and so they think it must be where they should be too. I remember being at the Expo98 and hearing my sister say: “People are so like sheep,” she was only 10 years old. At that point I thought she was exaggerating.

Nowadays I think it is not right to offend the sheep … A few weeks ago we were both in a kind of congress. Apart from the event itself being rather poorly organised (maybe one day we will write about this event), when we arrived we saw that there was a giant queue. But Tico is an expert when it comes to queueing issues and was fast to find out what was going on. What was happening was that most people did not realize that there were four different queues further near the entrance, and that people were to distribute themselves, according to their type of admission ticket, by each of the queues. Most people did not bother to find out why there was such a big queue, they just entered the larger queue, which was the one that ended up further back, and they didn’t even realised that there were other queues (which were probably the ones that matched their entry tickets for the event). This phenomenon happens wherever lots of people come together, and not only in the form of queues.

Actually this article isn’t even supposed to be about queuing, it’s about how easily people engage in “following the herd” in a virtually blind fashion. Because people aren’t used to questioning! This is something I see happen practically every day on social networks. For example, the other day I came upon a post on Facebook whose text began with the phrase: “The PAN party put forward a proposal to prohibit the poor and the homeless from having animals” and ended with “Those who don’t like people can’t love animals!”. At the end of the text there was a link.

Note to non Portuguese readers: PAN : People–Animals–Nature is a Portuguese political party, founded in 2009. Since 2015, they have one seat in the Portuguese parliament.

I had an immediate reaction to the post, as most people did, and thought “How stupid is that!!”, and then I thought “How did PAN put forward a proposal to prevent the poor from having animals?”. But then I did something that many people didn’t: I clicked on the link!! The link would open a document entitled “Proposal for Animal Municipal Regulation of the Municipality of Lisbon”. I then bother myself to read it, unlike all of those who rushed to share or comment on the post, demonstrating their outrage towards the PAN party. This document, where the PAN party name never appears, presents a series of animal protection and welfare proposals, which I’m sure most people would consider within common sense. Nowhere in this document, that might not even be written by PAN, can we find a piece of text that states that they “don’t like people” nor that they have some kind of agenda against the poor or the homeless.  

The post in question had been posted on November 20th and had already (at the time I wrote this article) 859 comments, 2715 shares and more than 1860 likes. And it had been posted by a “gentleman” who clearly knows that most people would not bother clicking on the link and reading the document. A man who undoubtedly wants to denigrate the image of the PAN party, and who somehow managed to do so. In such a simple way as writing some controversial sentences and posting a link that would look like a genuine source of what he declares, but that in reality no one was going to check (and hell, he knew that so well).

The same alleged news (based on such document) could have been: “The PAN party has submitted a proposal that advocates that in order to adopt animals people must have certain minimum conditions to guarantee their well-being.”. Language is very important, as I wrote in a previous article, and the way we say things is very important too because it can completely change the response that others have to the same idea. The “gentleman” who made that post also knew this too well.

Regarding both queues and social networks, for our own good and to ensure that we are really informed, so that we are not just another one blindly “following the herd”, we should always check what is actually happening. Personally I consider that being well informed is not a privilege but a duty of citizenship. And perpetuating false and biased publications is harmful to all and indeed very shameful for the ones who do it.


¿Qué tienen en común hacer cola y las noticias falsas? (ES)

Quizás algun@s de ustedes no sepan qué Tico tiene una cierta “alergia” a filas. Pero no es por la fila en sí, en el sentido en que hay que hacer cola y esperar, es porque muchas veces las filas son filas (y de las grandes) porque las personas se meten en ellas sólo porque ven que allí hay más gente, y por ello creen que es donde ellas también deben estar. Me acuerdo de estar en la Expo98 y escuchar a mi hermana diciendo: “Las personas son como ovejas”, ella tenía sólo 10 años. En ese momento yo creía que ella estaba exagerando.

Hoy en día creo que no está correcto ofender a las ovejas … Hace unas semanas estuvimos las dos en una especie de congreso. A parte del evento en sí estar bastante mal organizado (quizás algún día escribamos sobre ese evento), cuando llegamos vimos que había una cola gigante. Pero Tico es experta en esto de las filas y pronto averiguó lo que pasaba. Lo que pasaba era que la mayoría de la gente no se había dado cuenta que había 4 filas diferentes más allá, cerca de la entrada, y que las personas se tenían que distribuir, según su tipo de bono, por cada una de las filas. La mayoría de la gente no se preocupaba de ir a averiguar (allí un poco más adelante) porque estaba tan grande la cola, ell@s solamente se incorporaban a la fila más larga, que era la que acababa más atrás, y ni siquiera se percibían que había otras filas (filas esas que probablemente eran las que correspondían a sus bonos de entrada en el evento). Este fenómeno ocurre dondequiera que haya mucha gente, y no sólo en forma de filas.

En realidad este artículo ni siquiera va sobre colas, va sobre la facilidad con la que la gente “sigue la manada” a ciegas. ¡Porque la gente no se cuestiona! Esto es algo que veo suceder prácticamente todos los días en las redes sociales. Por ejemplo, hace pocos días vi un ‘post’ en facebook cuyo texto empezaba con la frase: “El partido PAN presentó una propuesta para prohibir que los pobres y los sin techo puedan tener animales” y el texto terminaba con: “A quien no le gusta a la gente no le gustan los animales!” a continuación tenía el enlace.

Nota para l@s lector@s no portugueses: PAN: Personas – Animales – Naturaleza es un partido político portugués, fundado en 2009. Desde 2015, tienen un escaño en el parlamento portugués. Los ideales de este partido son bastante semejantes a los del partido PACMA en España.

Yo, como la mayoría de la gente, tuve una reacción inmediata que fue pensar “¡Qué estupidez !”, y luego pensé: “¿Cómo es posible que PAN haya presentado una propuesta para prohibir que los pobres y los sin techo tengan animales?”. Pero después yo hice algo que la mayoría de personas que compartió y comentó la publicación no hicieron: ¡hice clic en el enlace! El enlace se abriría para un documento titulado “Propuesta de Reglamento Municipal de Animales del Ayuntamiento de Lisboa.”. Luego me di al trabajo de leer dicho documento, también al contrario de todas las personas que se apresuraron a compartir o comentar, demostrando su enojo hacia el partido animalista. En ese documento, donde por casualidad el nombre del PAN no aparece en ninguna parte, figuran una serie de propuestas de protección y bienestar animal bastante dentro de lo que la mayoría de las personas consideraría dentro del sentido común. En ningún lado había algo que decía que querían prohibir a los pobres de tener animales, ni mucho menos de la lectura de ese documento, que puede ni ser de la autoría del PAN, podemos sacar la idea de que al partido animalista “no le gusta a las personas”.

El post del que hablo se había publicado en Facebook el 20 de Noviembre y (en el momento en el que yo escribía este post) tenía 859 comentarios, más de 1860 “me gusta” y había sido compartido 2715 veces. Y había sido publicado por un señor que nítidamente sabe que la mayoría de la gente no se preocuparía por hacer clic en el enlace ni leer el documento. Un señor que sin duda quiere denigrar la imagen del PAN, y que de cierta forma lo consiguió, de manera tan simple como escribir unas frases polémicas y colocar un enlace que figura como fuente de lo que declara, pero que en realidad sabía que (casi) nadie iba a abrir.

La misma supuesta noticia (con base en dicho documento) podría haber sido: “PAN presentó una propuesta que defiende que, para tener animales, se deben tener ciertas condiciones mínimas para garantizar su bienestar”. El lenguaje es muy importante, como ya he escrito en un artículo anterior, y la forma como decimos las cosas es un ejemplo de ello porque puede cambiar completamente la reacción que las personas tienen a una misma idea. El señor que hizo esa publicación probablemente también lo sabe.

Tanto en las colas como en las redes sociales, para nuestro propio bien y para garantizar que estamos realmente informad@s, para que no seamos sólo un@ más siguiendo ciegamente la manada, debemos siempre verificar lo que de hecho pasa. Personalmente considero que estar bien informad@ no es un privilegio sino un deber de ciudadanía. Y perpetuar publicaciones falsas y tendenciosas es nocivo para todos y de hecho muy vergonzoso para quien lo hace.

O algodão não engana

Clean cotton (EN)

El algodón no engaña (ES)

O algodão não engana (PT)

Quantos produtos de beleza, higiene e limpeza diferentes usas no teu dia a dia? Se me recordo bem, eu cheguei a usar: champô, amaciador e máscara para lavar e hidratar o cabelo, mais cera, espuma ou gel para o pentear; pasta dentífrica e elixir para a boca e dentes; sabão ou gel de limpeza específico para a cara, desmaquilhante, tónico e hidratante para além de toda a panóplia de maquilhagem e claro, o perfume. Sem passar do pescoço já podemos estar a falar de pelo menos 15 produtos diferentes!! Quando falamos dos produtos de limpeza da casa o mesmo ocorre. Geralmente usamos um detergente de limpeza especial para cada superfície, um detergente da roupa para cada tipo de tecido, e ainda os ambientadores, os amaciadores e os abrilhantadores.

Mas o que é importante aqui é que utilizamos tudo isto sem realmente nos perguntarmos se é realmente necessário. Mais, não falamos sobre algumas coisas relacionadas com a higiene porque são consideradas tabu e praticamos uma série de contradições sem nenhum cabimento.

Falemos de algumas dessas contradições:

  • Lavamos o cabelo diariamente (ou quase), com uma quantidade de detergente* e afinco que muitas vezes nem despendemos para lavar as mãos antes de ir para a mesa. Se pensarmos um pouco sobre isso, vemos que lavamos os nossos cabelos como se eles andassem diariamente em contacto com superfícies sujas ou contaminadas. Depois de lhes tirarmos todo o seu óleo natural, que está lá para o proteger, substituímo-lo por outros óleos, mais ou menos sintéticos acompanhados de mais perfume. Porque o cabelo não deve cheirar a cabelo, isso não é lá muito civilizado.
  • Lavamos também cara e corpo com bastante detergente* e com uma bela esfrega, da mesma maneira que faríamos se estivéssemos mesmo sujos de lama. E, adivinha, depois de retirarmos, com tanto detergente*, água quente e esponjas esfoliantes, a gordura que a própria pele produz para se auto limpar e proteger, besuntamo-nos com uma mistura de produtos (à que chamamos creme hidratante) que não sabemos o que são, nem o que fazem, mas que certamente não comeríamos, e que a pele absorve e eventualmente acabam por circular dentro do nosso organismo.
  • Usamos desodorantes anti-transpirantes que, além de muitas vezes acentuarem o cheiro da transpiração (ao conjugarem-na com outros cheiros fortes), nos impedem de transpirar, impossibilitando uma função muito importante da pele que nos ajuda a eliminar toxinas (que mais uma vez é um sistema natural de limpeza do corpo).
  • Assoamos-nos com lenços de papel porque os lenços de tecido que se usavam no tempo dos nossos avós não são muito higiénicos. Tão preocupados que estamos de poder espalhar os nossos micróbios e vírus, mas acabamos por nos esquecermos dos lenços de papel enrolados nos bolsos dos casacos. E não, não lavamos as mãos de cada vez que lhes tocamos. O que acaba por fazer deles algo tão higiénico como os lenços de pano que se põe para lavar ao final do dia.
  • Lavamos as t-shirts e as camisas porque as usámos uma, ou vá lá, duas vezes, mesmo que elas não estejam realmente sujas nem com mau cheiro. Mas como já não cheira a “Violetas do Bosque” ou a “Orquídeas Douradas” também já não as consideramos limpas.
  • Compramos detergentes com embalagens diferentes e que expressamente nos são vendidos para um único fim (para o chão, para madeira, para a sanita, para o fogão, etc.), mas na verdade têm mais ou menos todos o mesmo conteúdo a nível de ingredientes. Como ninguém se questiona, as empresas que os vendem fazem muito mais dinheiro e nós enchemos o meio ambiente com uma maior diversidade de embalagens.

Quando comecei a questionar-me sobre as questões da nutrição e da alimentação, também me comecei a interessar pela questão da quantidade de produtos tóxicos que inadvertidamente colocamos no nosso corpo através de todos estes detergentes* e cremes, a quantidade de recursos que desperdiçamos sem necessidade real, e principalmente, a quantidade de vezes que realizamos verdadeiros rituais de limpeza só porque aprendemos (em casa ou através da publicidade) que era assim que se fazia.

Depois de muita pesquisa, experimentação e algumas conversas com a Tico posso dizer que reduzi o meu leque de produtos de limpeza, higiene e beleza para cerca de 10 produtos diferentes no total (falando de produtos para a casa e para todo o corpo). Quando tomo banho só uso sabão em duas os três pequenas zonas do corpo. Lavo o cabelo apenas uma vez por semana, com água corrente e uma solução diluída de vinagre de maçã para suavizar. Apenas lavo a minha roupa se cheirar mal ou tiver alguma sujidade. Uso lenços de pano em vez de lenços de papel. Raramente sinto a necessidade de hidratar a minha pele e quando o faço é com azeite ou com algum óleo natural.

Isto é o que funciona para mim. Sei que para diminuir o meu impacto ambiental, sem comprometer a minha saúde e conforto, ainda há coisas que posso mudar. Aqui a questão não é dizer que eu estou certa e quem não faz o mesmo está equivocado. O meu objectivo é encorajar-te a questionar e não fazer só porque todos o fazem, mas sim porque é o que queres fazer em consciência, porque achas que tens razões para tal. E que essas maneiras de fazer as coisas estejam de acordo com os valores que defendes e com as preocupações sócio-ambientais que tens. Cria os teus próprios rituais!

É que na verdade o “teste do algodão” é um grande engano.

* Nota da autora: a palavra detergente aparece neste texto muitas vezes em substituição de outras como champô ou gel de banho. Essa substituição é propositada pois por um lado esses produtos são exactamente isso – detergentes – e por outro porque a sua composição muitas vezes não difere assim tanto da composição dos detergentes de limpeza da casa.


El algodón no engaña (ES)

¿Cuántos productos diferentes de belleza, higiene y limpieza usas en tu día a día? Si me recuerdo bien, yo llegué a usar: champú, suavizante y máscara para lavar e hidratar el cabello, además de cera, espuma o gomina para peinarme; pasta dentífrica y elixir para la boca y los dientes; jabón o gel de limpieza específico para la cara, desmaquillante, tónico e hidratante además de toda la gama de maquillaje y claro, el perfume. ¡Sin pasar del cuello ya podemos estar hablando de al menos 15 productos diferentes! Cuando hablamos de los productos de limpieza de la casa lo mismo ocurre. Generalmente usamos un detergente de limpieza especial para cada superficie, un detergente de la ropa para cada tipo de tejido, y además los ambientadores, los suavizadores y los abrillantadores.

Pero lo que es importante aquí es que utilizamos todo esto sin realmente preguntarnos si es realmente necesario. Más, no hablamos de algunas cosas relacionadas con la higiene porque son consideradas tabú y practicamos una serie de contradicciones sin ningún sentido.

Hablemos de algunas de estas contradicciones:

  • Lavamos el cabello diariamente (o casi), con una cantidad de detergente * y ahínco que muchas veces no se gasta ni para lavarse las manos antes de sentarse la mesa. – Si pensamos un poco sobre eso, vemos que lavamos nuestros cabellos como si ellos estuvieran diariamente en contacto con superficies sucias o contaminadas. – Después de quitarle todo su aceite natural, que está allí para protegerlo, lo sustituimos por otros aceites, más o menos sintéticos acompañados de más perfume. Porque el pelo no debe oler a pelo, eso no es muy civilizado.
  • Lavamos también cara y cuerpo con bastante detergente * y con un buen fregado, de la misma manera que haríamos si estuviéramos realmente sucios de lodo. Y, adivina, después de retirar, con tanto detergente *, agua caliente y esponjas exfoliantes, la grasa que la propia piel produce para auto-limpiarse y protegerse, nos untamos con una mezcla de productos (a la que llamamos crema hidratante) que no sabemos lo que son, ni lo que hacen, pero que ciertamente no comeríamos, y que la piel absorbe y eventualmente acaban por circular dentro de nuestro organismo.
  • Usamos desodorantes anti-transpirantes que, además de muchas veces acentuar el olor de la transpiración (al conjugarse con otros olores fuertes), nos impiden transpirar, imposibilitando una función muy importante de la piel que nos ayuda a eliminar toxinas (que una vez más es un sistema natural de limpieza del cuerpo).
  • Nos sonamos las narices con pañuelos de papel porque los pañuelos de tela que llevaban nuestros abuelos no son muy higiénicos. Estamos tan preocupados por no esparcir nuestros microbios y virus, pero acabamos por olvidar los pañuelos de papel enrollados en los bolsillos de las chaquetas. Y no, no lavamos las manos de todas las veces que les tocamos. Lo que acaba por hacer de ellos algo tan higiénico como los pañuelos de tela que se ponen para lavar al final del día.
  • Lavamos las camisetas y las camisas porque las usamos una o dos veces, aunque no estén realmente sucias ni con malos olores. Pero como ya no huelen a “Campo de Flores” o a “Frescor y Pureza” tampoco las consideramos limpias.
  • Compramos detergentes con envases diferentes y que expresamente se venden para un único fin (para el suelo, para madera, para el inodoro, para la cocina, etc.), pero en realidad tienen más o menos todos los mismos contenidos a nivel de ingredientes. Como nadie se cuestiona, las empresas que los venden hacen mucho más dinero y quienes los compramos llenamos el medio ambiente con una mayor diversidad de envases.

Cuando empecé a cuestionarme sobre las cuestiones de la nutrición y la alimentación, también gané interés por el tema de la cantidad de productos tóxicos que inadvertidamente colocamos en nuestro cuerpo a través de todos estos detergentes * y cremas, la cantidad de recursos que desperdiciamos sin necesidad real, y principalmente, la cantidad de veces que realizamos verdaderos rituales de limpieza sólo porque aprendemos (en casa o a través de la publicidad) que así que se hace.

Después de mucha investigación, experimentación y algunas conversaciones con Tico puedo decir que he reducido mi gama de productos de limpieza, higiene y belleza para alrededor de 10 productos diferentes en total (hablando de productos para la casa y para todo el cuerpo). Cuando tomo baño solo uso jabón en dos las tres pequeñas zonas del cuerpo. Lavo el pelo sólo una vez por semana, con agua corriente y una solución diluida de vinagre de manzana para suavizar. Solo lavo mi ropa si huele mal o tiene alguna suciedad. Uso pañuelos de tela en lugar de pañuelos de papel. Rara vez siento la necesidad de hidratar mi piel y cuando lo hago es con aceite de oliva o con otro aceite natural.

Esto es lo que funciona para mí. Sé que para disminuir mí impacto ambiental, sin comprometer mi salud y comodidad, todavía hay cosas que puedo cambiar. Aquí la cuestión no es decir que estoy cierta y quien no hace lo mismo está equivocado. Mi objetivo es alentarte a cuestionar y no hacer las cosas sólo porque todos lo hacen, sino porque es lo que quieres hacer en conciencia, porque crees que tienes razones para ello. Y que esas maneras de hacer las cosas estén de acuerdo con los valores que defiendes y con las preocupaciones socio-ambientales que tienes. ¡Crea tus propios rituales!

Es que en realidad el “test del algodón” es una gran estafa.

* Nota de la autora: la palabra detergente aparece en este texto muchas veces en sustitución de otras como champú o gel de baño. Esta sustitución se hace deliberadamente porque, por un lado, estos productos son exactamente eso – detergentes – y por otro, porque su composición a menudo no difiere tanto de la composición de los detergentes de limpieza de la casa.


Espelho mágico

Magic mirror (EN)

Espejo mágico (ES)

Espelho mágico (PT)

Espelho meu, espelho meu…

O que pensas quando te olhas ao espelho? Gostas do que vês? Gostavas que algo fosse diferente? Até onde irias para mudar algo no teu aspecto físico? Fazer dieta, fazer mais desporto, mudar os hábitos de alimentação e movimento, fazer um tratamento, passar por uma cirurgia plástica?

Eu sempre fui vaidosa, quem me viu crescer deu por mim mais de uma vez a dançar em frente ao espelho, a fazer caretas, ou simplesmente a admirar o bem que ficava com o vestido novo. Mas a partir da adolescência o espelho deixou de ser tão simpático. Sempre tive uma certa gordurinha abdominal (mesmo quando era criança e tinha as pernas tão magras como dois palitos) mas até aos 14 anos isso não me importava. Apareceram-me varizes aos 16 anos (por causa da pílula contraceptiva, história que deixarei para outro artigo), quando me mudei de Évora (onde vivi até aos 18 anos), para ir viver e estudar em Lisboa, engordei uns 7/ 8 quilos, e já não me lembro quando percebi que tinha celulite. Lembro-me de achar que tinha a cintura pouco marcada e que tinha pouco peito (o que me fazia usar sutiãs “push-up” com enchimento, sem eles sentia que não era ninguém). Lembro-me de não comprar certas peças de roupa porque “me faziam as coxas largas”.

Um conjunto de factores (como a morte da minha mãe, o Yoga e outros dos quais acabarei por falar eventualmente noutros artigos) fez com que chegasse aos 29 com uma total aceitação do meu corpo. Não me lembro do momento em que o espelho deixou de ser um crítico de beleza, até porque acho que não foi da noite para o dia.

O Yoga foi definitivamente um dos fatores que contribuiu para mudar a minha relação com o meu corpo. Uma das características do Yoga é que o praticante deve estar consciente do seu corpo durante a prática. O que muitos professores chamam de “ouvir o teu corpo” é na verdade a melhor ferramenta para manter o equilíbrio entre desafiar o corpo mais um pouco sem abusar e produzir lesões. Esta concentração nas capacidades e limites do meu corpo, durante a hora e meia de cada prática, faz-me reconectar com este instrumento maravilhoso que a natureza me deu.

O Yoga alterou completamente os objectivos que tinha quando praticava outras actividades físicas. Deixei de fazer exercícios abdominais para ter uma barriga mais lisa, para passar a fazê-los para fortalecer o meu centro e poder evoluir dentro da prática. Deixei de querer ter umas pernas mais finas e mais tonificadas e passei a concentrar-me em ter umas pernas mais fortes e mais flexíveis. Deixei, aos poucos, de querer ter um corpo que parecesse assim ou assado, para passar a trabalhar para ter um corpo que pudesse fazer isto ou aquilo. Como ter mais autonomia na hora de levantar e carregar coisas pesadas ou poder chegar a ser uma velhota com muita genica que não precise de ajuda para as tarefas do dia a dia.

O Yoga ensinou-me esta lição mas não precisamos ir tod@s practicar Yoga para a aprender. Basta termos mais consciência dos nossos corpos. Quando te baixares para apertar o sapato, baixa-te lentamente, percebe até onde vai o teu tronco sem dobrares as pernas. Se não consegues chegar aos atacadores então dobra as pernas o suficiente para chegar. E quando estiveres lá em baixo, ouve o teu corpo, percebe o que te diz. Podes fazer isto com outros movimentos, ou fazê-lo enquanto estiveres no ginásio, ou no cross-fit. Até quando estiveres a tomar banho, concentra-te na tua pele e na sua resposta à temperatura da água.

Quando crias uma relação de amizade e confiança com o teu corpo, o que ele parece segundo o reflexo do espelho deixa de importar, o que importa agora é o como te sentes dentro dele.

…quem é mais bela do que eu?

Quantas vezes já ouviram uma amiga dizer “Quem me dera ter um corpo como o da ______”? – Preencher o espaço em branco com o nome de qualquer famosa que seja nacional ou internacionalmente reconhecida como ‘“boazona’”. – Quantas vezes já o pensaste tu? – Falo directamente às mulheres, pois a minha experiência não me permite entender tão bem como os homens vivem estas questões da aceitação do próprio corpo.

Há uns dois ou três anos atrás, falava com uma amiga e ela disse: “Ai, se eu tivesse o corpo da _____…”. A frase acabou aqui claro, acaba sempre. É uma frase que fica suspensa. E fica suspensa porque quem a diz não chega a pensar realmente na outra parte. O “se” é uma conjunção subordinativa condicional, o que significa que, neste contexto, indica uma hipótese. Mas nunca ninguém diz o que aconteceria “se tivesse aquele corpo”. Para surpresa da minha amiga eu decidi perguntar: “Se tivesses o corpo da ______, o quê? O que aconteceria? O que seria diferente?”.

A minha amiga é uma rapariga normal, como uma massa corporal bastante dentro do que é considerado saudável, ela não tem nenhum problema ao nível da mobilidade e faz até desporto e dança. Apesar de não haver realmente nada de errado com o seu corpo, ela não tem o que a nossa sociedade considera um “corpo perfeito”.

Então, de que lhe serviria ter um “corpo perfeito”? De que serve a qualquer um@ de nós? Seríamos tod@s modelos ou atrizes/actores famos@s? Mas e quem não quer ter uma profissão relacionada com a beleza física? Ter um “corpo perfeito” será sinónimo de felicidade? Ou sinónimo de uma vida amorosa de sonho? Basta pensarmos um bocado para percebermos que não, apesar de ser essa a mensagem que recebemos dos meios de comunicação e das redes sociais a toda a hora, ISSO NÃO É VERDADE. E no fundo tod@s o sabemos. Também bastam alguns “clicks” para percebermos que @s que supostamente já têm o “corpo perfeito” estão obcecad@s por mantê-lo, ou, na maioria acham que ainda não o atingiram. Hum… isto parece-me mais uma daquelas buscas intermináveis por um ideal incansável.

Atenção, ninguém está a dizer que devemos deixar de fazer qualquer tipo de exercício físico, nem começar a comer sem qualquer controlo, por que a forma física não importa. Ela importa, importa que estejamos saudáveis, que tenhamos força, que mantenhamos o corpo e flexível e preparado, para aquela corrida até à porta do autocarro que está quase a partir, ou para carregar aquelas caixas da mudança de casa. Para que no futuro tenhamos energía e saúde para brincar com os netos ou para ser @ próxim@ Iron Nun. Importa muito que nos sintamos bem no nosso corpo, que o amemos e respeitemos, até que a morte nos separe… dele.


Espejo mágico (ES)

Espejito, espejito, dime una cosa…

¿Qué piensas cuando te miras al espejo? ¿Te gusta lo que ves? ¿Te gustaría que algo fuera diferente? ¿Hasta dónde irías para cambiar algo en tu aspecto físico? Hacer dieta, hacer más deporte, cambiar los hábitos de alimentación y movimiento, hacer un tratamiento, pasar por una cirugía plástica?

Yo siempre fui vanidosa, quien me vio crecer me encontró más de una vez bailando frente al espejo, o haciendo muecas, o simplemente admirando lo bien que me quedaba el vestido nuevo. Pero a partir de la adolescencia el espejo dejó de ser tan simpático. Siempre tuve una cierta grasa abdominal (incluso cuando era niña y tenía las piernas tan delgadas como dos palillos) pero hasta los 14 años eso no me importaba. A los 16 años me salieron varices (a causa de la píldora anticonceptiva, una historia que dejo para otro artículo), cuando me mudé de Évora (donde viví hasta los 18 años), para ir a vivir y a estudiar en Lisboa, gané unos 7/8 kilos, y ya no recuerdo cuando fué que percibí que tenía celulitis. Me acuerdo pensar que tenía la cintura poco marcada, y que tenía poco pecho (lo que me hacía usar sujetadores ‘push-up’ con ‘relleno’, sin ellos sentía que no era nadie). Me acuerdo de no comprar ciertas prendas porque “me hacían los muslos anchos”.

Un conjunto de factores (como la muerte de mi madre, el Yoga y otros de los cuales acabaré por hablar eventualmente en otros artículos) hizo que llegase a los 29 con una total aceptación de mi cuerpo. No recuerdo el momento en que el espejo dejó de ser un crítico de belleza, incluso porque creo que no fue de la noche a la mañana.

El Yoga fue definitivamente uno de los factores que contribuyó para cambiar mi relación con el cuerpo. Una de las características del Yoga es que el practicante debe ser consciente de su cuerpo durante la práctica. Lo que muchos profesores llaman “oír tu cuerpo” es en realidad la mejor herramienta para mantener el equilibrio entre desafiar al cuerpo un poco más pero sin abusar y producir lesiones. Esta concentración en las capacidades y límites de mi cuerpo, durante la hora y media de cada práctica, me hace reconectar con este maravilloso instrumento que la naturaleza me ha dado.

El Yoga cambió completamente los objetivos que tenía cuando practicaba otras actividades físicas. Dejé de hacer ejercicios abdominales para tener una barriga más lisa, para pasar a hacerlos para fortalecer mi centro y poder evolucionar dentro de la práctica. Dejé de querer tener unas piernas más finas y más tonificadas y pasé a concentrarme en tener unas piernas más fuertes y más flexibles. Dejé, poco a poco, de querer tener un cuerpo que pareciera así o asá, para pasar a trabajar para tener un cuerpo que pudiera hacer esto o aquello. Como tener más autonomía a la hora de levantar y cargar cosas pesadas o poder llegar a ser una vieja con mucha vitalidad y que no necesite ayuda para las tareas del día a día.

El Yoga me enseñó esta lección pero no es necesario practicar Yoga aprenderla. Basta con tener más conciencia de nuestros cuerpos. Cuando te bajes para apretar los zapatos, bájate lentamente, percibe hasta donde va tu torso, sin doblar las piernas. Si no puedes llegar a los cordones, entonces dobla las piernas, pero solo lo suficiente para llegar. Y cuando estés allá abajo, oye tu cuerpo, percibe lo que te dice. Puedes hacer esto con otros movimientos, o hacerlo mientras estés en el gimnasio, o en el cross-fit. Hasta lo puedes hacer mientras que estés duchando, concentrándote en tu piel y en su respuesta a la temperatura del agua.

Cuando creas una relación de amistad y confianza con tu cuerpo, lo que él parece según el reflejo del espejo deja de importar, lo que importa ahora es lo que sientes desde dentro de él.

…¿quién en este reino es la más hermosa?

¿Cuántas veces has escuchado a una amiga decir “Ojalá tuviera el cuerpo como el de ______”? – Rellenar el espacio en blanco con el nombre de cualquier famosa que esté reconocida nacional o internacionalmente como ‘muy buena’. – ¿Cuántas veces lo has pensado tú? – Hablo directamente a las mujeres, porque mi experiencia no me permite entender tan bien como viven los hombres estas cuestiones de la aceptación del propio cuerpo.

Hace unos dos o tres años, hablaba con una amiga y ella dijo: “Ay, si yo tuviera el cuerpo de ______…”. La frase acabó aquí claro, siempre acaba aquí. Es una frase que se suspende. Y queda suspendida porque quien la dice no llega a pensar realmente en la otra parte. El “si” es una conjunción condicional, lo que significa que, en este contexto, indica una hipótesis. Pero nunca nadie dice lo que sucedería “si tuviera ese cuerpo”. Para sorpresa de mi amiga decidí preguntarle: “Si tuvieras el cuerpo de  ______, ¿qué? ¿Qué sucedería? ¿Qué sería diferente?”.

Mi amiga es una chica normal, como una masa corporal bastante dentro de lo que se considera sano, no tiene ningún problema al nivel de la movilidad y hace hasta deporte y danza. A pesar de que no hay realmente nada malo con su cuerpo, no tiene lo que nuestra sociedad considera un “cuerpo perfecto”.

Entonces, ¿de qué le serviría tener un “cuerpo perfecto”? ¿De qué sirve a cualquier@ de nosotr@s? ¿Seríamos tod@s modelos o actrices/actores famos@s? Pero, ¿y quién no quiere tener una profesión relacionada con la belleza física? ¿Tener un “cuerpo perfecto” es sinónimo de felicidad? ¿O sinónimo de una vida amorosa de sueño? Basta pensar un poco para percibir que no, a pesar de ser ese el mensaje que recibimos de los medios de comunicación y de las redes sociales a toda hora, ESO NO ES VERDAD. Y en el fondo tod@s lo sabemos. También bastan algunos “clicks” para percibir que l@s que supuestamente ya tienen el “cuerpo perfecto” están obcecad@s por mantenerlo, o la mayoría creen que aún no lo han alcanzado. Jo … esto me parece una de aquellas búsquedas interminables por un ideal inalcanzable.

Atención, nadie está diciendo que debemos dejar de hacer cualquier tipo de ejercicio físico, ni empezar a comer sin ningún control, por qué la forma física no importa. Si que importa, es importante que estemos san@s, que tengamos fuerza, que mantengamos el cuerpo flexible y preparado para aquella carrera hacia la puerta del autobús que está a punto de salir, o para mover esas cajas de la mudanza de casa. Para que en el futuro tengamos energía y salud para jugar con los nietos o para ser la próxima Iron Nun. Importa mucho que nos sintamos bien en nuestro cuerpo, que lo amemos y lo respetemos, hasta que la muerte nos separe… de él.